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ARTIGOS



RAIMUNDO CELA (1890 -1954)

Compramos de um particular a aquarela sobre papel “Paisagem de Dampierre, França”, de 1921 (Raimundo Cela, 1890-1954. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2004, p. l74/175). Em seguida, mostramo-la a alguns “experts” e eles, embora reconhecendo o valor da obra, levantaram suspeita sobre a sua autoria. Não aparecia vestígio de um desenho prévio, anterior às pinceladas de aquarela. Submetida a obra à apreciação de Max Perlingeiro, ele dirimiu as dúvidas: a obra é realmente da autoria de Cela e ele a havia pintado de forma livre e solta, fruto do avanço de sua técnica e do seu talento no domínio do figurativo.

O artista foi transformando a forma clássica em traços pessoais, realizados ao natural com características formais inteiramente próprias, comentou Cláudio Valério Teixeira (idem, p. 111).

A aquarela “Paisagem de Dampierre, França” foi pintada no período da permanência de Cela na Europa (de 1920 a 1922). Ele ganhou o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro do Salão Nacional de Belas Artes em 1917 e viajou para a França em abril de 1920.

Gravador, pintor, aquarelista e desenhista, Cela é o autor de uma das principais produções pictóricas sobre a paisagem nordestina. Dentre outros temas, ele retrata a poesia dos pescadores e de suas jangadas nas praias do Ceará.

Sua arte não procura tão-somente imitar as paisagens representadas, mas também lhes dá movimento, força, agilidade e graça, além de uma beleza solene, meio melancólica, mas luminosa, como diz Cláudio Valério Teixeira (O Globo, Rio de Janeiro, 01 maio 2004, p. Prosa & Verso, p. 6).

Nascido em Sobral, interior do Ceará, em 19 jul. 1890, Raimundo Brandão Cela criou-se em Camocim, cidade litorânea a 373 km de Fortaleza, onde seu pai, José Maria Cela Mosquera, espanhol, era funcionário de uma empresa ferroviária e sua mãe, Maria Carolina Brandão Cela, professora.

Em 1906, transferiu-se para Fortaleza para continuar os estudos. Tornou-se aluno do Liceu do Ceará.

Em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro, a fim de iniciar os estudos de engenharia e, também, de pintura. Ingressou na Politécnica e na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA).

Em 1920, graças ao prêmio obtido no Salão Nacional de Belas Artes de 1917, com a apresentação do quadro “Último diálogo de Sócrates”, seguiu para a Europa.

Em 1922, quando estava no limiar de conquistar fama e projeção internacional mais permanente, o seu problema de saúde o forçou a voltar ao Brasil, registra Estrigas (Raimundo Cela, 1890-1954. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2004, p. 27).

Retornou para Camocim e empregou-se como engenheiro de uma usina elétrica.

Em 1938, retornou à vida artística com a pintura de um painel sobre a libertação dos escravos, encomendada pelo governo, e estabeleceu-se em Fortaleza. Montou ateliê no Teatro José de Alencar.

Em 1945, voltou ao Rio de Janeiro e assumiu o cargo de professor de gravura em metal na ENBA. Exerceu esse cargo até a sua morte em 06 nov. 1954. Cela é o introdutor do ensino oficial da gravura no Brasil, lembra Yolanda Queiroz (idem, p. 9).

Ganhou duas vezes, em 1945 e em 1947, a Medalha de Ouro do Salão Nacional de Belas Artes para a pintura e para a gravura.

Impressionado com a qualidade das gravuras de Cela, José Roberto Teixeira Leite, então dirigente do Museu Nacional de Belas Artes, criou em 1964 a Sala Especial Raimundo Cela.

As águas-fortes de Cela o colocam dentre os maiores cultores do gênero no Brasil, assinala Adir Botelho (idem, p. 42).

A água-forte é um processo a traço rápido, livre, caprichoso, de gravações delicadas e de sombras misteriosas, surgido nos princípios do século XVI e tem na genialidade de Rembrandt um dos seus melhores intérpretes. A obra de Cela é fundamental na evolução da arte da gravura no Brasil, complementa Adir Botelho (idem, p. 51).