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ARTIGOS



CHICO DA SILVA (1922 – 1985)

“A história da arte se baseia em noções de estilo próprio e talento individual. De uma perspectiva comercial, uma obra da ‘escola de Rembrandt’ não poderia nunca atingir os preços estratosféricos de uma obra autêntica do próprio mestre, independente do quão artisticamente satisfatória ela seja em todos os outros níveis.” (Eleanor Heartney, jornalista e comentadora de arte contemporânea)

Jean-Pierre Chabloz, nascido em 1910 em Lausanne, Suíça, e falecido em 1984 em Fortaleza, recordou:

“... eu passeava ao longo da praia Formosa quando, de repente, minha atenção foi atraída por estranhos desenhos que enfeitavam algumas casinhas de pescadores. Intrigado, aproximei-me para ver aquilo mais de perto.”

Era o ano de 1943 e Chabloz e Chico da Silva tinham, ambos, 33 anos.

Continuou Chabloz:

“Amplamente esboçados a carvão ou giz, havia grandes pássaros de linhas elegantes, peixes um tanto monstruosos, estranhas aparições de navios-fantasmas. O que me chamou a atenção e me seduziu logo nesses desenhos elementares foi sua originalidade, seu estilo nitidamente arcaico e seu admirável poder de evocação poética. Entusiasmado, procurei saber quem era o autor dessas composições murais. ‘É um cara meio louco’, responderam. É um caboclo que veio não se sabe de onde, se diverte rabiscando os muros e desaparece, sem deixar endereço’.“

Chabloz descobriu e projetou Chico da Silva no cenário artístico nacional e internacional.

Sob a orientação de Chabloz, Chico progrediu. “Permanecendo fiel a seu universo interior e não alterando em nada sua preciosa visão de poeta, Francisco corria de descoberta em descoberta e conquistava galhardamente um real domínio artístico e técnico”, registrou Chabloz.

Lucien Finkelstein, fundador e presidente do Museu Internacional de Arte Naif do Brasil (MIAN), comenta sobre a projeção de Chico da Silva:

“Muitos ‘naifs’ brasileiros são reconhecidos no exterior, como Chico da Silva, que ganhou o prêmio ‘Menção Honrosa’ de pintura, em 1966, na 33ª Bienal de Veneza, a mais importante exposição mundial de arte contemporânea. O prêmio de Chico da Silva é um feito único para a pintura brasileira de todos os tempos.”

Explica Lucien Finkelstein: “O adjetivo francês ‘naif’ vem do latim ‘nativus’, que significa nascente, natural, espontâneo, primitivo. Assim, pode ser substituído também por ingênuo e primitivo, mas as três palavras devem ser tomadas ao pé da letra. Todas têm origem no Latim: ingênuo vem de ‘ingenuus’ (nascido livre) e primitivo, de ‘primitivus’ (que pertence ao primeiro estado de uma coisa). Essas três definições poderiam servir para caracterizar a pintura ‘naif’, que é natural, livre e pura.”

Chico da Silva enquadra-se no conceito de ‘naif’, na forma conceituada por Lucien. Avaliou o próprio Chabloz: “Francisco Silva, primitivo em muitos aspectos de sua natureza, era ainda muito criança. De sua ingenuidade atraente, e de sua pequena astúcia também, me dava mostras engraçadas, às vezes.”

Chico pintava por sua habilidade e por sua aptidão, não por ciência ou conhecimentos. Autoditata, ele pintava sem regras e sem constrangimentos. Era o criador de suas obras e, como observou Chabloz, sua pintura tinha originalidade.

André Malraux, ministro da Cultura da França, disse sobre Chico: “um artista primitivo entre os maiores do mundo”.

Rubem Navarra, crítico de arte, comentou em 1945: “Devo dizer que os guaches desse artista indígena são qualquer coisa de muito sério. Na arte brasileira só Cícero Dias, há dez anos, me dera uma impressão de ingenuidade lírica tão poderosa, aplicada à pintura.”

Antes de Chabloz, Chico ganhava a vida consertando guarda-chuvas e fazendo fogareiro de lata para vender, lembra Ivan, um dos integrantes da Escola do Pirambu.

Chico não era ligado a nenhuma escola ou grupo. Ele, sim, criou uma escola e criou um estilo. Ele criou uma escola localizada no bairro Pirambu, em Fortaleza, formada por um grupo seguidor de seu estilo.

Na arte, segundo Luiz Fernando Marcondes, estilo é a “maneira de expressão característica e diferenciadora de um artista ou de um grupo, em qualquer arte”, enquanto escola é o termo empregado quando nos reportamos ao critério geográfico, de acordo com a tendência atual.

O estilo de Chico é original e inconfundível: os pássaros, os peixes e os outros animais pintados tanto por Chico como pelos seus seguidores constituem a simbologia da Escola do Pirambu. Inexiste nada parecido na pintura mundial, por isso Chabloz apresentou Chico da Silva como “o índio que reinventou a pintura.”

O grupo da Escola do Pirambu era formado por Babá, o primeiro discípulo (Sebastião Lima da Silva), Claudionor (José Cláudio Nogueira), Francisca (Francisca Silva), já falecida, Garcia (José Garcia de Santos Gomes) e Ivan (Ivan José de Assis).

O autor vem incentivando o grupo a continuar a produção de obras no estilo criado por Chico da Silva ou à luz da simbologia da Escola do Pirambu, uma marca registrada do Ceará. O autor também vem estimulando Gerardo da Silva, neto de Chico e filho de Francisca Silva.

Escolas, fundadores de escolas e seguidores ou discípulos fazem parte da história da arte. Não é demérito ter obra de um seguidor ou discípulo.

Sugeriu Chabloz: “Do ponto-de-vista prático, é certo que, ao primeiro olhar lançado sobre os guaches de Francisco Silva, não se pode deixar de pensar no aproveitamento que deles poderiam fazer as vulgarmente chamadas ‘artes aplicadas’. A cerâmica, o tecido estampado, o papel-parede, o bordado, a tapeçaria, encontrariam no Pintor da Praia um criador infinitamente precioso.”

Chabloz, lembra Estrigas, “possuía, além do desenho, da pintura e da música, conhecimentos de filosofia, envolvia-se com as ciências ocultas, era um animador cultural e ótimo conversador, trazendo uma cultura européia e sendo muito sensível ao que era nosso.”

Disse Chabloz sobre o Ceará: “De todos os Estados brasileiros, o Ceará é, muito provavelmente, o mais autóctone, o mais autêntico, o mais original.”
Newton Freitas