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ARTIGOS



AFONSO LOPES (10 JAN. 1918 – 12 AGO. 2000)

Afonso Lopes retratou o Ceará. Essa observação pode parecer, à primeira vista, revelação de limitação ou despretensão. Muito pelo contrário. A inspiração foi o Ceará, mas ele pintou o Ceará com virtuosismo. Conseguiu conferir às suas obras, pela força de sua técnica, expressada num figurativo solto e espontâneo, a naturalidade e a simplicidade. Ele pintou o Ceará com originalidade, originalidade em traços e em cor. Ele pintou o Ceará com amor, pois só movido pelo amor poderia dispensar tanta obstinação às imagens de sua terra natal.

Afonso, hoje e amanhã, certamente mais amanhã, será sempre uma referência sobre o Ceará, pelo foco tenaz de sua pintura sobre a nossa paisagem, aí abrangendo o homem, o mar, o sertão e a cidade. Para fecundar sua imaginação, Afonso não precisou viajar; somente o Ceará, pela profundidade de sua imaginação, foi a fonte fértil de sua criatividade. Por acaso o Sol pede luz a outra estrela ?

Cearenses como Afonso, lembra-me o baião que diz assim: “enquanto a minha vaquinha tiver um couro e um osso e puder com o chocalho pendurado no pescoço, eu vou ficando por aqui” (“Último pau-de-arara”, de Venâncio Curumbá e José Guimarães).

A oportunidade não é para nos alongarmos, mas não podemos deixar de ressaltar um quadro de Afonso, um quadro muito especial porque esse quadro exibe uma característica rara em uma obra de arte: a ação. O quadro tem vida: sentimos o vaqueiro sobre o cavalo laçando o boi, sentimos o boi fugindo por entre a caatinga. Lembramo-nos de Euclides da Cunha quando diz: “por onde passa o boi, passa o vaqueiro com o seu cavalo” (“O sertanejo” in ‘Sertões”, São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 78. Esse quadro, não nos esquecemos, adquirimo-lo diretamente de Afonso, em uma visita à sua residência.

Pouco antes de seu passamento, enriquecemos nosso acervo de Afonso Lopes com três valiosos desenhos, datados do ano 2000, um dos quais gentilmente oferecido pelo filho também chamado Afonso Lopes; os outros dois vieram das mãos do filho Antônio, igualmente pintor. Somente um homem marcado pelo talento pode, aos 80 anos, produzir desenhos tão firmes, tão trabalhados, tão detalhados e tão bonitos.