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ARTIGOS



SINCRONICIDADE

Criado pelo psicanalista Carl Gustav Jung, em 1929, o termo sincronicidade define um princípio de ligação não-causal. Desde o início de seus trabalhos com os sonhos, Jung percebeu a tendência dos motivos oníricos coincidirem com situações reais, com um significado semelhante ou mesmo com situações reais idênticas (Esquenazi, Rose. “Sábia sincronicidade”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25.set.2004, Vida, n. 42, p. 22).

A sincronicidade não é uma imposição do mundo de fora. A nossa vida é sincrônica em relação a tudo, mas falta a questão da consciência, opina Álvaro Gouvêa, psicólogo, PUC-Rio. Quando se percebe a sincronicidade, participa-se do evento e aí vem o gozo, como dizia Lacan. O universo psíquico não existe sozinho. Sincrônico é algo de dentro colocado no mundo e correspondido pelo mundo. Sentimos prazer quando uma coisa desejada coincide com os acontecimentos de fora.

A sincronicidade pode acontecer com qualquer pessoa, mas é preciso estar em contato consigo mesmo para perceber. Às vezes, ocorre um fato externo e o significado subjetivo, interior, ocorre em seguida. Situações sincrônicas são recados do céu, um toque divino garantindo não estarmos sozinhos na Terra, de acordo com os românticos.

Quando prestamos atenção aos acontecimentos e colocamos a nossa intenção e intuição em estado de alerta, somos capazes de propiciar sincronicidades. Os seres humanos têm radares com capacidade de ir além da percepção consciente. Acontecem mil coisas fora de nossa compreensão.

Existem coincidências boas e más, é só preciso prestar atenção, diz Arthur Koestler. Quanto mais se presta atenção, mais essas coincidências são percebidas. Se acontece uma coincidência infeliz, dá-se o nome de azar. Se acontece uma coincidência feliz, diz-se ser o máximo da coincidência. Existem também as coincidências gratuitas. Aparentemente elas não servem para nada. São apenas engraçadas.

Existem três teorias para explicar as coincidências, explica o jornalista Luís Edgar: 1) a lei da serialidade, a mais antiga (anos 20), de Paul Kammerer, austríaco, segundo a qual fatos parecidos tendem a acontecer juntos; 2) a teoria da sincronicidade, de Carl G. Jung; 3) a teoria dos campos mórficos, a mais recente, de Rupert Sheldrake, inglês, biólogo.

Um fato torna-se sincrônico quando traz uma emoção e um significado novo à vida, comenta Paula Boechat, psicanalista. Tal acontecimento pode transformar uma pessoa muito racional, incapaz de deixar uma emoção brotar, em alguém mais sensível. Isso pode ter acontecido com Ary Barroso.

Em 1929, desestimulado com a profissão de compositor, sem sucesso, Ary Barroso ouviu o conselho de um amigo para ir “se benzer” com uma espírita em Niterói. Tinham feito um “trabalho” contra ele, alertou o amigo. Embora co-autor de uma música com crítica à Umbanda, Ary foi à Niterói e tomou um banho de ervas. Na volta, ouviu um grupo de pessoas gritando na Praça Quinze: “Dá nela”, “Dá nela” (uma mulher agredia passageiros num ponto de ônibus). Ao chegar em casa, compôs “Dá nela”, música com a qual ganhou o primeiro prêmio e se abriram várias frentes profissionais.

Robert Langdon, professor de simbologia religiosa, não confiava no conceito de coincidência. Por ter passado a vida explorando a interconexão oculta entre emblemas e ideologias aparentemente díspares, Langdon via o mundo como uma teia de história e eventos profundamente entrelaçados. As conexões podem ser invisíveis, mas estão sempre presentes, enterradas logo abaixo da superfície, observa Dan Brown (“O código Da Vinci”. Rio de Janeiro: Sextante, 2004, p. 23).