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ARTIGOS



CULTURA DA CARNAÚBA

A criação do Fundo de Apoio à Cultura da Carnaúba (Funcarnaúba) foi proposta pelo deputado federal Átila Lira (PSDB-PI) por intermédio do Projeto de Lei nº 2.673, de 2003, aprovado em 24.ago.2004, por unanimidade, pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, da Câmara dos Deputados.

A finalidade é desenvolver, financiar e modernizar a cultura da carnaúba, elevar a qualidade de vida dos trabalhadores do setor, incentivar a produtividade de seu cultivo e exploração, assim como estimular seus produtos derivados, seu aproveitamento industrial, sua exportação, defesa de preço e mercado,

A carnaubeira (“copernifera cerífera”), chamada pelo botânico Pio Correia de “Árvore da Vida”, produz em suas folhas um pó cerífero utilizado para a produção da cera de carnaúba, com inúmeras aplicações econômicas, tanto domésticas como (e principalmente) industriais, no Brasil e no exterior. Até o final dos anos 40, início dos anos 50, a cera de carnaúba constituiu um produto muito valorizado, mas a concorrência com as ceras sintéticas e polímeros determinou a decadência desse produto natural.

Resistente à seca como o juazeiro, a carnaubeira dá beleza à paisagem do sertão. Exuberante e bonita, é uma palmeira aproveitada integralmente: a fibra extraída da folha serve para produzir tarrafas, escovas, cordas, chapéus, bolsas, esteiras, etc.; a casca serve como lenha; a palha serve para a cobertura de casas e de solos agrícolas; os cachos dos frutos, colhidos maduros e submetidos à secagem, servem para a extração de óleo comestível e para a alimentação do gado; o tronco (caule), com duração indefinida, serve para fazer ripas e caibros usados em construções.

Ainda como subproduto, a folha triturada, após a colheita do pó, serve como adubo para milhares de pequenas roças de sertanejos e substitui os adubos químicos. A palha de carnaúba contém 7% de proteína e pode ser utilizada para a alimentação de ovinos e caprinos, além de sua utilização como adubo, conforme estudos em andamento pela UFC.

Nos últimos anos, as exportações de cera de carnaúba vêm aumentando como consequência de novos usos industriais, como revestimento de frutos “in natura” e cápsulas de remédios. Nesses casos, a cera de carnaúba, por suas características orgânicas, é produto fundamental e insubstituível.

A carnaubeira é uma planta nativa, não precisa de adubação, de agrotóxicos, de mecanização agrícola. Sua cultura é representativa para o Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, áreas de ocorrência nativa no Nordeste brasileiro. A cultura da carnaúba gera emprego e renda para os trabalhadores rurais no meses de julho a dezembro, justamente os meses sem atividade na agricultura familiar em toda a região.

Em 1894 ocorreu a primeira exportação de cera de carnaúba para a Inglaterra pelo Porto de Parnaíba, segundo Felipe Mendes de Oliveira (“Economia e desenvolvimento do Piauí”. Teresina: Prefeitura de Teresina, 2003, p. 420). As exportações pelo Porto de Parnaíba chegaram a representar 2,3% do total do Brasil, em 1940, e caíram para apenas 0,7%, em 1950 (idem, p. 180). O principal produto era a cera de carnaúba, afirma Pádua Ramos, economista.

O “boom” do ciclo da carnaúba se verificou durante a II Guerra Mundial. O ciclo começou a decair no final dos anos 40, início dos anos 50, avalia Pádua Ramos. Em Parnaíba, José de Moraes Correia, exportador e também químico, notabilizou-se porque conseguiu introduzir processo pelo qual transformou cera parda, de segunda categoria, em cera flor, de primeira categoria, acrescenta Ramos.

Queremos duplicar as 16 mil toneladas de cera exportadas por ano para os EUA, Europa e países asiáticos, mas precisamos de incentivos, diz Aníbal Arruda, presidente da Associação dos Produtores Cearenses de Carnaúba (O Povo, Fortaleza, 26.set.2004, Economia, p. 32). No Piauí, a cera de carnaúba ainda é o principal produto de exportação e as vendas externas geram US$ 15 milhões por ano. A produção é de 6.500 toneladas.

A carnaubeira é um forte símbolo da cultura cearense, afirma Sheila Oliveira, fotógrafa, a qual aponta a destruição de 30% dos carnaubais cearenses. Essa destruição da “árvore da vida”, diz ela, além de representar o fim de atividades tradicionais e geradoras de renda para uma série de comunidades do semi-árido, pode vir a ocasionar desequilíbrios ambientais, como o aumento da temperatura, desaparecimento de espécies agregadas, desertificação e assoreamentos dos rios.

A economia da carnaúba nunca teve sua importância, principalmente para o desenvolvimento regional, reconhecida pelo governo, avalia o deputado federal Átila Lira. A cultura ainda não recebeu nenhum estímulo governamental, acrescenta.

A criação do Fundo de Apoio à Cultura do Caju, proposta pelo senador Luiz Pontes, é outra iniciativa de implementação de políticas para estimular culturas de importância regional.

As exportações de cera de carnaúba, com participação de 2,3% na pauta das vendas internacionais do Ceará, cresceram 35% no primeiro trimestre de 2005, em relação ao mesmo período de 2004, após expansão de 31,4% em 2004 sobre 2003. No ano de 2005, as exportações somaram US$ 21,3 milhões, contra US$ 14,9 milhões em 2002; em 2006, de jan. a abr., o total acumulado é de US$ 7,95 milhões, correspondente a 59,43% das vendas brasileiras do produto (após o Ceará, vêm o Piauí (36%) e o Rio Grande do Norte (3,3%).

A cera de carnaúba encontra espaço no mercado farmacêutico, de cosmética, alimentação, eletrônica, dentre outros. Os embarques destinam-se especialmente aos EUA, Europa (Alemanha e Espanha) e Ásia (Japão). A produção e a exportação de cera de carnaúba fica pulverizada entre os Estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, diz Edgar Gadelha Pereira Filho, presidente do Sindicato das Indústrias Refinadoras de Cera de Carnaúba no Estado do Ceará (SINDICARNAÚBA), com seis indústrias filiadas, responsáveis pela produção de cerca de 8 mil toneladas, dentro de um total brasileiro estimado em 15 mil toneladas. As indústrias do Ceará concentram cerca de 50% da produção nacional, as indústrias do Piauí, 40%, e as indústrias do Rio Grande do Norte, 10% (Gazeta Mercantil, São Paulo, 28 abr. 2005, p. B-14).

As exportações de cera de carnaúba deverão crescer de 35% a 40% em 2007, segundo José Fonteles Moraes, presidente do Sindicato das Indústrias Beneficiadoras de Cera de Carnaúba do Estado do Ceará (Sindicarnaúba). A cera de carnaúba ocupa a 6ª ou 7ª posição na pauta das exportações cearenses. A produção conjunta do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte soma 30 milhões de quilos de pó, correspondente a 18 milhões de quilos de cera, e movimenta US$ 60 milhões de faturamento por ano, com 90% das vendas destinadas ao mercado externo (Diário do Nordeste, Fortaleza, 22 ago. 2007, Negócios, p. 3).

Grupo Johnson

Herbert Johnson, de Wisconsin, EUA, presidente da empresa SC Johnson, fabricante das Ceras Johnson e de outros produtos de limpeza, veio ao Ceará em 1935 para pesquisar as potencialidades da carnaúba. A cera produzida a partir dessa palmeira nativa era o principal item para os produtos fabricados pela SC Johnson, e Herbert Johnson quis conhecer o potencial de cultivo da carnaúbeira a fim de assegurar uma fonte de recursos renováveis e manejáveis. Em 1998, Sam Johnson, filho de Herbert, veio ao Ceará e fez algumas doações a entidades do Estado: a fazenda Raposa (plantação de carnaúbeiras), situada em Maracanaú, doada à Universidade Federal do Ceará (UFC); reserva Serra das Almas, localizada em Crateús, transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), doada à Associação Caatinga; Escola Johnson, no bairro Luciano Cavalcante, em Fortaleza, hoje pertencente à rede de ensino da Secretaria da Educação do Estado. (“Empresário percorre caminhos do avô”. O Povo, Fortaleza, 16 out. 2004, p. 11).

Sobrevivência

Planta nativa, a carnaubeira se desenvolve nos grandes vales, aluviões e tabuleiros do Ceará. O Piauí e o Rio Grande do Norte também a exploram, mas com menos intensidade. Os três Estados possuem aproximadamente 25 indústrias de refinamento da cera, com capacidade de beneficiamento em torno de 35 mil toneladas por ano. A safra se estende de agosto a dezembro, quando ocorre o corte de suas palhas e sua secagem, com o objetivo da obtenção do pó cerífero. Nos meses subseqüentes, realiza-se o cozimento do pó para surgir a cera de origem. O pó extraído da parte central das folhas novas produz a cera clara, classificada pelo mercado como tipo ´A´. O pó obtido em toda a extensão das folhas produz a cera tipo ´B´, de cor alaranjada ou preta. A cera industrializada serve para fazer batons, adesivos, cera dental e ceras em geral, além de acabamento de couro e madeira. O produto é usado ainda em fios elétricos, chicletes, filmes fotográficos e impermeabilizantes. Tem aplicação no setor de informática em ´chips´, ´tonners´, código de barras, papel carbono e filmes plásticos. A palha também poderá ser usada, em breve, na ração de caprinos e ovinos, de acordo com pesquisa da Embrapa. No Ceará, a exportação de 8,25 mil toneladas de cera propiciou receitas no valor de US$ 21,20 milhões em 2005, além de gerar 100 mil empregos. A sobrevivência dos bosques de carnaubais do Ceará, assim como de toda a composição paisagística, cultural e social vinculadas, vive um momento crítico, alerta Jeovah Meireles, professor doutor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC). A criação de unidades de proteção integral e de uso sustentável, interconectadas com as demais bacias hidrográficas e matas de transição, representaria os primeiros passos para a permanência do ecossistema, complementa Jeovah Meireles. Como meio de combate à pobreza, o Ceará iniciará projeto para transferir tecnologia a algumas comunidades a fim de permitir a extração da cera por meio de secador solar, assim como para dar alternativas ao uso da palha da carnaúba, como a fabricação de papel e peças artesanais (Diário do Nordeste, Fortaleza, 30 abr. 2006, caderno Regional, p. 1 e 2).

O Parque Estadual das Carnaúbas, criado pelo governo do Estado do Ceará por meio do Decreto nº 28.154, de 15 fev. 2006, localizado na cidade de Granja (335 km de Fortaleza), nas imediações do distrito de Timonha, com mais de 10 mil hectares, destina-se a dar proteção integral à carnaúba, árvore símbolo do Estado.