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ARTIGOS



ARTE CEARENSE, A SCAP E MÁRIO BARATTA

Poucos são os nomes possíveis de recolher-se na história cearense das artes plásticas no século XIX, afirma Roberto Galvão (Dicionário das Artes Plásticas do Ceará, Fortaleza: Oboé Financeira, 2003, p. 111 ). Mas o quadro é outro na história do século XX.

O capítulo de maior repercussão na história da arte no Ceará inicia-se em fins da década de 30 para começo de da década de 40, registra Estrigas (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 142).

Antes dessa auspiciosa fase, não se pode deixar de registrar o nome de Vicente de Leite (1900-1941), grande paisagista, com importantes conquistas, dentre as quais duas vitórias no Salão Nacional de Belas Artes: em 1935 com o Prêmio de Viagem ao Brasil e em 1940 com o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro.

Em 1941, nasce a primeira entidade de artes plásticas, o Centro Cultural de Belas Artes (CCBA), e com ela os primeiros salões de pintura, continua Estrigas. Fundado por Mário Baratta (1914-1983), seu primeiro presidente, o CCBA possibilitou a revelação de jovens talentos de projeção futura, como Antônio Bandeira (1922-1967) e Aldemir Martins (1922), além de divulgar Raimundo Cela (1890-1954), nome já consagrado.

Em 1943, ocorreu o I Salão de Abril, criado pela União Estadual dos Estudantes (UEE). Realizado na rua Major Facundo, número 430, contou com a participação de nove artistas (o Salão de Abril consolidou-se como evento cultural e transcorreu em 2004 a sua 55ª edição).

Em 1944, surgiu a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) com o mesmo espírito e o fim do CCBA, conforme registra Baratta (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 133 ). Pela sua capacidade de liderança, Baratta, também um dos fundadores da SCAP e um de seus presidentes (eleito em 1946), advogado e professor da Faculdade de Direito da UFC, muito influenciou para a aglutinação dos artistas, na opinião de Estrigas.

Baratta assim avaliou a pintura no Ceará à época: Indiscutivelmente temos o melhor elemento humano possível, com nomes como João Siqueira, R. Kampos, Antônio Bandeira, Aldemir Martins, Delfino, Barboza Leite e outros. No Ceará, predomina a arte moderna. Não possuímos hoje acadêmicos, à exceção de Raimundo Cela, inegavelmente um grande pintor. Todos os outros morreram. A arte vive em função da economia, e como falta esta base em nosso meio, daí a dificuldade de se pintar no Ceará e a luta dos pintores contra o hostil ambiente econômico (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 123).

Baratta assim analisou a finalidade da pintura: Transformar o quadro numa mensagem. Tornando-se mensagem, o quadro torna-se, imediatamente, uma arma possível de ser usada para defender esta ou aquela idéia (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 127). Pintar é cor. Pintar é usar cores sobre uma superfície com o fim de comunicar sensações estéticas, observou Baratta noutra oportunidade (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 95). Arte, seja ela qual for, é sempre o reflexo de uma época, é índice de uma cultura, é, em última análise, uma resultante de determinantes econômicas, explicou Baratta (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 71).

O binômio CLÃ-SCAP foi a expressão cultural de uma época. O grupo CLÃ (Clube de Literatura e Artes) foi gerado dentro do ateliê da SCAP, o grande útero aberto dentro das noites e dos dias a todos os amores, lembra Baratta (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 110). Lá se juntavam Otacílio, Fran, Bandeira, Eduardo Campos, Carmélio Cruz, Artur Eduardo Benevides, Barrica, Braga Montenegro, R. Kampos, Aldemir Martins, Inimá e não sei quem mais. Jean-Pierre Clabloz, suíço de Lausanne, participava do grupo falando da velha cultura européia.

A relação de afinidade entre a SCAP e o CLÃ aproximou artistas plásticos e escritores, registra Estrigas.

A SCAP trouxe um período de brilhantismo e de fortes melhorias materiais para o grupo (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 29), avaliou Baratta em 06.mai.1945 em O Estado. Depois de mais de quatro anos de uma atividade febril, as artes plásticas cearenses atravessaram as fronteiras do Estado e conquistaram louros nos salões do Sul (duas Medalhas de Bronze no IX Salão Paulista de Artes, além da Grande Medalha de Ouro conquistada por Raimundo Cela).

Baratta registrou na imprensa (O Estado, em 24.jun.1945 e em 01.jul.1945) dois importantes momentos da pintura cearense (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 51 e 54): a mostra de Raimundo Cela no museu da Escola de Belas Artes, “o maior acontecimento do ano no mundo das artes plásticas”, e a exposição cearense na Galeria Askanasy com a participação de Chabloz, Bandeira e Inimá, além de Feitosa e Chico da Silva. Ruben Navarra, um dos maiores críticos de arte do Rio, fez a apresentação dos artistas cearenses no catálogo elaborado pela Galeria Askanasy.

Cela alia ao profundo conhecimento da técnica de sua arte um espírito, uma alma de artista. Mostram essas qualidades o movimento de suas figuras, seu desenho impecável, a largueza dada aos seus assuntos, comentou Baratta sobre Cela (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 51)

Bandeira é um revolucionário em arte, afirmou Baratta (idem). O seu desenho nada tem de educado, de estudado, pois é espontâneo, livre, audacioso. A palheta nunca é fixa, mas mutável como os assuntos. A poesia destaca-se em seus trabalhos de forma perene.

Inimá, quando chegou ao Ceará, pintava, mas aqui se fez artista, lembrou Baratta (idem), para quem é muito diferente pintar e ser artista. No Ceará, Inimá descobriu a poesia e conseguiu criar. O desenho de Inimá não tem a mesma espontaneidade de Bandeira; é mais estudado, é mais acadêmico, mas é doce, agradável, sem arestas determinadoras de choques à vista. A palheta de Inimá é uma palheta de contrastes. Em nosso bloco ninguém soube tirar tanto proveito do preto como Inimá. Ele gosta, sente e explora os contrastes, sem cair no decorativismo, e suas cores não são cruas. É bom retratista, audacioso mesmo.

Os desenhos de Chabloz valem por toda sua pintura. Têm uma técnica originalíssima. É um traço esfarrapado de uma plasticidade única, avaliou Baratta (idem)

Chico da Silva, apresentado como “índio do Ceará”, pinta com ingenuidade pura como só um primitivo poderia fazer, observou Baratta (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 54). São seus motivos prediletos: pássaros fantásticos, cobras lendárias, Yaras e giritiranas-bola.

A respeito da fuga de Aldemir Martins da província, aumentando a lista dos emigrados, Baratta conversou com ele e consignou na edição de 27.mai.1945 de O Estado (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 39): Vou engrossar a “cabeça de ponte” lançada no Rio por Inimá, Bandeira e Chabloz, disse Aldemir a Baratta. Eu quero e preciso viver da minha arte. No Sul, as possibilidades do artista são mais amplas e podemos ter maior projeção. Formamos o trio da arte moderna no Ceará, eu, você o Bandeira. Mais tarde, em 1977, Baratta comentou: quando Aldemir pegou um Ita para o Rio e selou seu destino, nascia uma glória para nossas artes (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 129)

O Ceará exporta pintores sem aproveitá-los, assim como exporta o algodão sem fiar, a cera sem industrializar, os minérios sem fundir. Assim foi Vicente Leite, foi Cela, foi Bandeira, foi Inimá, foi Aldemir, foi Siqueira, lamenta Baratta (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 79). Nossas igrejas estão virgens da nossa pintura (à exceção de apenas uma); nossos prédios públicos, quartéis, também.

Barboza Leite é um paisagista de largos recursos, com uma técnica segura, um desenho firme e dono de uma palheta invejável pelo brilho e limpeza das cores, avaliou Baratta (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 65) Uma das melhores características das paisagens de Barboza Leite é a magnífica luminosidade transportada para elas.

R. Kampos é não só um paisagista como também um retratista. Mais audacioso no retrato. Trata o retrato com muito mais largueza e muito maior vigor em relação à paisagem. Além de bom desenho, R. Kampos tem boa percepção dos valores, analisou Baratta (idem).

Barrica é um artista original pelo colorido e pelas deliciosas simplificações de seu desenho. O seu gênero é a composição, ele não sabe pintar uma paisagem sem botar, lá dentro, uma figura, observou Baratta (idem). Barrica é incapaz de usar uma cor crua. Suas cores são os meios-tons.

Afonso Lopes destaca-se dentre os pintores novos. Pinta com muita originalidade e também com muita cor local, tendo especial inclinação para composições versando sobre motivos regionais, disse Baratta (idem).

Baratta por ele mesmo: entre os dois (Barrica e Afonso Lopes), está o meu lugar: entre o colorido cru e quase primitivo de Afonso Lopes e o abstracionismo de cor e forma de Barrica (“Arte Ceará”, Fortaleza: Museu do Ceará, 2004, p. 83).