Digite a palavra-chave

A busca é efetuada em todas as páginas do site e abrange todo o seu conteúdo.
Página principal




ARTIGOS



DIREITA & ESQUERDA

Os ideais de igualdade, liberdade e paz são os fins últimos almejados pelos homens ou pelos quais os homens estão dispostos a lutar na sociedade organizada, diz Filomeno Moraes, professor da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Na concepção de Norberto Bobbio, a esquerda enfatiza a igualdade, e a direita e esquerda democrática enfatizam a liberdade, ensina Filomeno Moraes. Ainda para Bobbio, diferentemente do entendimento tradicional, cabe à esquerda a defesa da igualdade e da liberdade, de modo concomitante. Mesmo depois da queda do Muro de Berlim, é válida a distinção conceitual entre direita e esquerda para explicar genericamente o funcionamento das sociedades contemporâneas. (“Sem Bobbio”. O POVO, Fortaleza, 17.jan.2004, p. 7).

“A mudança no modo de produção capitalista, a globalização e o fim da União Soviética fizeram com que a esquerda ficasse, num primeiro momento paralisada”, interpreta Marilena Chauí, filósofa. Para ela, a esquerda já foi mais rica em pensamento e agora tem de produzir um pensamento novo. A direita, analisa Chauí, “está cansativamente repetitiva”: “Uma direita que repete as suas próprias loas ao neoliberalismo.” “Estamos precisando de pensamento, dos dois lados”, conclui Chauí.

Ser de esquerda é lutar contra a injustiça, pela igualdade de gênero, pelos valores culturais, pela mobilidade da sociedade, pela não-burocracia, pela distribuição de renda a partir da ativação da sociedade e não das migalhas do Estado, enfim, toda a força dos direitos humanos, explica o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (“O que é ser de esquerda hoje?”. Primeira Leitura, São Paulo: Ed. Primeira Leitura, n. 27, mai.2004, p. 48).

Ser de esquerda hoje significa enfatizar competitividade e iniciativa empresarial, evitar o populismo, não adotar o estatismo, reformar o governo, tudo isso de forma compatível com a justiça social, diz Anthony Giddens, britânico (idem).

Os termos direita e esquerda surgiram durante a Revolução Francesa, século XVIII, em plena assembléia constituinte, quando os deputados revolveram dividir-se em grupos para facilitar a contagem das votações: os favoráveis ao aprofundamento das reformas sentavam-se à esquerda, e os mais conservadores, à direita, lembra Henri Weber, francês, senador pelo Partido Socialista.

A esquerda (continua Weber) recusa a sociedade como ela é e se propõe a mudá-la, a fim de promover mais igualdade, justiça social e solidariedade entre as pessoas. Por oposição, a direita seria mais conformista. Na sociedade francesa, a maior parte das reivindicações da esquerda foi satisfeita, e o movimento hoje já renunciou à abolição da propriedade privada, reconhecendo os méritos da economia de mercado, mas sem ignorar seus limites.

O valor-chave da esquerda é a igualdade, e o valor-chave da direita é a liberdade dos indivíduos, em particular a liberdade de iniciativa, conclui Weber.

A hostilidade dos intelectuais ao liberalismo teria explicação psicológica: o ressentimento com as leis de mercado, as quais não lhes concederiam as remunerações materiais e simbólicas exigidas pelo seu espírito, em razão de seus merecimentos. Teria também explicação sociológica: o papel de crítico a ser desempenhado pelo intelectual nas sociedades liberais, avalia Raymond Boudon, sociólogo (“O antiliberalismo como o ópio dos intelectuais”. Primeira Leitura, São Paulo: Ed. Primeira Leitura, n. 27, mai.2004, p. 90).

Nos EUA, não há esquerda realmente. São dois partidos situados no centro, com alas extremas para os dois lados. Não temos a esquerda tradicional da Europa e da América Latina. Nos últimos 20 anos, o único modelo econômico é o neoliberalismo. O problema da esquerda é dar resposta para isso, observa Marshall C. Eakin, doutor pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), historiador da Vanderbilt University (Folha de S. Paulo, São Paulo, 14.jun.2004, p. A12).

O choque entre socialismo e capitalismo gerou debates políticos e influenciou partidos e seus programas em todo o mundo durante mais de um século. A derrocada da União Soviética significou o colapso do grande debate ideológico sobre a melhor maneira de organizar a vida econômica e política. A vitória do capitalismo deixou o mundo sem uma ideologia do descontentamento, sem um conjunto sistemático de idéias capazes de fazer crítica do mundo tal como ele existe. Esse vácuo ideológico é uma das forças relevantes por trás do antiamericanismo, agravado com atitudes do governo de George W. Bush. Ele desconsiderou instituições e alianças internacionais. A superpotência exercitou seu poderio de agir sozinha e incomodou outras nações. As limitações reveladas em décadas de diplomacia eram simplesmente auto-impostas pelos EUA. A postura de resistência ao poder americano conquistou votos em eleições recentes no Brasil, Alemanha, Paquistão, Kuwait e Espanha. O antiamericanismo, como atitude mental, extrapola o âmbito político e estende-se aos domínios da economia e da cultura. Os EUA desempenham, porém, um papel crucial como organizador de bens coletivos, nas áreas de terrorismo, aids, proliferação nuclear, reforma das Nações Unidas, ajuda externa. A situação do mundo, sem a presença dos EUA como líder global, seria, sem dúvida, desanimadora. O único outro ator, com recursos e tradição para desempenhar um papel global, seria a Europa, mas ela se encontra desunida demais para alcançar seus objetivos sem os EUA. Todo o poder europeu limitar-se-ia a determinar o fracasso dos planos americanos, conclui Fareed Zakaria, editor da Newsweek Internacional, autor de “O futuro da liberdade: democracias não-liberais dentro e fora dos Estados Unidos” (Veja, São Paulo, n. 1.886, 05 jan. 2005, p. 76).

CAPITALISMO & SOCIALISMO

O capitalismo corresponde à espontaneidade do processo natural. Ele é igual à natureza, e a natureza come um, esmaga o outro. O socialismo é a tentativa de organizar o processo, de planejar, de o homem ser o futuro desse processo, porque nós seres humanos queremos um pouco de ordem no mundo. Mas é muito difícil planejar a vida, um sonho louco. A vida é uma coisa surpreendente, criativa, duma complexidade sem limites. Quando tentamos enquadrá-la num planejamento, surge um Estado totalitário. A derrocada da URSS e dos demais países do Leste Europa é a maior demonstração do quanto é difícil mudar e criar uma sociedade nova. Eu me pergunto, nesta altura, se é possível planejar a vida, conclui Ferreira Gullar em 28.ago.1994 (“100 entrevistas do ‘Mais’: 1992 - 2002”. São Paulo: Publifolha, 2003, p. 150).

O paraíso não é deste mundo. Essa a premissa do liberalismo, segundo Mario Vargas Llosa em 27.nov.1994 (“100 entrevistas do ‘Mais’: 1992 - 2002”. São Paulo: Publifolha, 2003, p. 165). Num país comunista, cria-se em teoria uma sociedade igualitária. Mas essa igualdade, no socialismo da Rússia e no Leste Europeu, resultou num mito e o preço pago por ela foi uma miséria generalizada. As diferenças de renda são inevitáveis. Essas diferenças podem ser atacadas para resultarem exclusivamente do esforço e do talento e não do abuso, do atropelo e do privilégio. O sistema de mercado premia justamente o esforço e o talento, mas uma sociedade regulada pelo mercado deve ter responsabilidade com os setores fracos e marginalizados, como os velhos e os doentes. As sociedades liberais, como a Inglaterra e a França, (e não as totalitárias) criaram os serviços públicos mais avançados. Há um risco nisso porque o Estado benfeitor, quando passa a assumir tantas responsabilidades, em dado momento converte-se numa espécie de monstro e começa a esmagar a iniciativa e a entravar o processo de criação de riquezas. Passa a cobrar impostos muito altos e desincentiva a produção da riqueza. A sociedade civil deve assumir parte da responsabilidade com os serviços (educação, saúde, etc.), mas sem prejuízo de sua função principal, a criação da riqueza. Sem criação de riqueza, não há desenvolvimento, não há justiça. “O empresário privado é o motor extraordinário do desenvolvimento, com a condição de que o coloquem nos trilhos adequados”, disse Adam Smith. O papel do governo é certamente fixar as regras do jogo. Mas deve existir um marco cultural, com uma Justiça independente e tribunais defendendo a lei. A alta inteligência e alta cultura não estão protegidas da cegueira política. Paul Éluard, Aragon, Neruda, grandes vozes líricas, cantaram poemas a Stalin.

A esquerda sempre é crítica aos governos. Mas quando partidos de esquerda assumem o governo, deslocam-se sem hesitar para o Centro, cooptando a Direita (ou sendo por ela cooptados), observa Philip Bobbitt (“A guerra e a paz na história moderna”. Rio de Janeiro: Campus, 2003, p. 753).

“Fracassou o Estado mínimo neoliberal e fracassou o Estado inspirado no socialismo tradicional. O PT é pós-comunista e pós-social-democrata.” José Genoíno, presidente nacional do PT (Veja, São Paulo, n. 1892, 16 fev. 2005, p. 37).

A QUEDA DO MURO DE BERLIM

Em 9 de novembro de 1989, o governo da Alemanha Oriental abriu o Muro de Berlim, derrubado por uma multidão, e ao mesmo tempo anunciou sua intenção de realizar eleições livres, democráticas e secretas. Em outubro de 1990, decidiu-se a unificação germânica e, em seguida, a autonomia da Europa Oriental. Em novembro de 1990, a União Soviética subscreveu a Carta de Paris e comprometeu-se a adotar o modelo de Estado-nação parlamentar. Em 25 de dezembro de 1991, a União Soviética dissolveu-se formalmente.

Esses extraordinários acontecimentos desacreditaram o comunismo. O Estado democrático, capitalista e parlamentar derrotou seus adversários ideológicos. Em 2001, cerca de 120 dos 192 Estados do planeta contavam com governos democráticos.

Eleito secretário-geral do Partido Comunista em 1985, Mikhail Gorbachev tentou reestruturar a economia doméstica para tornar o modelo socialista mais competitivo em termos internacionais (“perestroika”: reestruturação). Gorbachev ampliou a agenda de mudanças introduzindo reformas políticas (“glasnost”: transparência ou abertura).

Apenas uma economia intensiva e de rápido desenvolvimento será capaz de assegurar o fortalecimento da posição do país na arena internacional, permitindo-lhe ingressar no novo milênio como grande e próspera potência, alertava Gorbachev antes mesmo de sua eleição como secretário-geral. Uma vez eleito, ele avaliou: o destino do país e o lugar do socialismo no mundo dependiam da consecução dos objetivos econômicos.

As reformas econômicas de Gorbachev consistiram em tentativas de implantar práticas de mercado na economia soviética de planejamento centralizado. Dentre outras medidas, introduziram-se incentivos ao lucro e condenaram-se as metas de produção. Mas as reformas continham medidas contraditórias e as práticas de mercado, adotadas parcialmente, não exerceram grandes efeitos ou tiveram um impacto perverso. Em 1989, era senso comum o reconhecimento do fracasso das reformas, houve escassez de alimentos e o governo perdeu o controle da economia.

No Estado-nação, nasceu o antagonismo entre o comunismo e o capitalismo. “Vencerá o sistema garantidor de melhor vida para as pessoas”, disse Nikita Khruschchev, secretário-geral do Partido Comunista soviético (1953 – 1964).

Os EUA, para vencer o comunismo, resolveram contê-lo dentro de suas fronteiras, impedindo o enriquecimento do sistema pela conquista de novas sociedades. Uma vez administrada a contenção, o sistema socialista ruiria por um processo próprio de deterioração crescente ou empobrecimento contínuo.