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ARTIGOS



CHINA VERSUS EUA

Em 30 anos, a renda per capita da China aumentou 12 vezes. O PIB cresceu 10% ao ano em média. Na crise de 2007/2008, o regime autoritário lançou pacote de estímulo e, como resultado, evitou a explosão do desemprego e o PIB expandiu-se em 8,7% em 2009, enquanto boa parte do mundo se arrastou (Folha de S. Paulo, São Paulo, 07 fev. 2010, p. A16).

2. O sucesso do modelo chinês alimenta debate sobre os modelos econômicos: de um lado, o Consenso de Washington; de outro, o Consenso de Pequim (capitalismo autoritário de resultados), na forma proposta por Joshua Cooper Ramo, consultor dos EUA (id.).

3. São características do modelo chinês: 1ª) alicerçado em mercado potencial de 1,4 bilhão de pessoas (o consumo só começou nos últimos 20 anos), pode impor regras a investidores e governos estrangeiros; as regras não seriam aceitas em outros lugares do mundo; 2ª) o sistema (autoritário e eficiente) permite o planejamento a longo prazo; detém o controle de terras e propriedade; maneja mão de obra disciplinada e trabalhadora; 3ª) parcos direitos trabalhistas(*) (não há férias, fins de semana remunerados nem indenização após demissão) e repressão a greves (id.).

4. Mais ainda: forte intervenção do Estado na economia e na indústria; taxa de câmbio congelada; abertura a investidores estrangeiros, mas com transferência de tecnologia e sociedades compulsórias com estatais locais; sistema judiciário nada transparente; pirataria impune; livre comércio (id.).

5. Apesar de reconhecerem o sucesso do crescimento nos últimos 30 anos, intelectuais chineses, entre os quais Yang Yao, dirigente do Centro de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim, criticam a idéia da superioridade do Consenso de Pequim. A desigualdade social e os conflitos de interesses podem ser obstáculos no desenvolvimento do país (id.).

6. O sucesso do modelo, explica Yang Yao, deve-se à implementação correta de doutrinas de mercado neoclássicas: abertura econômica; privatização, respeito à propriedade e disciplina fiscal. Mais ainda: a inflação é controlada e a carga fiscal fica entre 20% e 25% do PIB (id.).

7. O sucesso não vai durar para sempre, alerta Yan Yao. Os desafios estão-se acumulando: 90% das exportações chinesas saem de nove Províncias litorâneas; o interior foi negligenciado; 52% do PIB equivale à poupança e o consumo caiu a um recorde negativo. Partes do governo continuam a rasgar contratos e investidores domésticos e estrangeiros saem perdendo muitas vezes (id.).

8. Nova crise deve ocorrer pela soma de desequilíbrios criados com a arbitrária tomada de terras, a censura à internet e as cargas horárias chinesas de trabalho, adverte Yan Yao (id.).

9. A China (onde o ´Ano do Tigre´ começou em 14 fev. 2010) nunca copiará o sistema ocidental de vários partidos e de separação entre os poderes. Continuaremos sob a liderança do Partido Comunista, afirma Wu Bangguo, um dos nove membros do Comitê Permanente do Politburo, a maior instância de poder local (id.).

10. Com PIB de US$ 4,9 trilhões em 2009, a China deve assumir o posto de segunda maior economia do mundo ainda em 2010. Com superávit em torno de US$ 200 bilhões anuais nas relações comerciais com os EUA (o maior resultado de um país nas transações com os EUA), a China é o maior credor da dívida externa norte-americana. Para 48% dos chineses, a economia da China é a mais importante do planeta, de acordo com pesquisa da Pew (Época. São Paulo: Globo, n. 612, 08 fev. 2010, p. 71).

11. A China ultrapassou a Alemanha (a maior economia européia) e se tornou o principal exportador global, com base nos resultados de 2009. Ainda a partir dos dados do ano passado, a China passou dos EUA e se tornou o maior mercado mundial de veículos. O governo chinês estimulou os consumidores, por meio de financiamentos, a trocar carros antigos por novos. Também incentivou a população rural para a aquisição de veículos. No mês de jan. de 2010, a venda de veículos atingiu 1,32 milhão de unidades, crescimento de mais de 100% sobre o mesmo período de 2009 (Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 fev. 2010, p. B4).

12. Em 2009, a China realizou investimento estatal de 40% do PIB em obras de infraestrutura. Ela não está a transformar-se num país de economia de mercado. As tarifas de água, luz e energia são fixadas pelo governo central, assim como a taxa de câmbio. Os investimentos são dirigidos pelo Estado e toda a economia está centralizada em quatro grandes bancos estatais, o da China (central), o da Agricultura, o da Construção Civil e o de investimentos (IBCB). Nos últimos 30 anos, é o país de maior capacidade de superação e crescimento, avalia Jonathan Fenby (Valor, São Paulo, 12 fev. 2010, Eu & Fim de Semana, p. 4).

13. A China (Hu Jintao é o presidente e chefe das Forças Armadas, além de secretário-geral do Partido Comunista, e Wen Jiabao é o primeiro-ministro e chefe de Governo) comprou cerca de 11 milhões de toneladas de aço do mundo em jan. de 2004 (perto de 2,5 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil). O consumo elevou-se para 60 milhões de toneladas em jan. de 2010 (24 milhões de origem brasileira (id.).

14. Na história, todos os países emergentes em fase de crescimento rápido vieram a enfrentar crises. Desde a Inglaterra, quando ainda era mercado emergente, até o Brasil. O difícil é prever quando a crise na China irá ocorrer. Os chineses estão com os bolsos cheios de dinheiro, mas há províncias endividadas. Tomaram empréstimos gigantescos para construir grandes parques industriais. Mas provavelmente todos esses parques não serão ocupados por empresas, avalia Kenneth Rogoff, autor de ´Oito séculos de delírios financeiros´, São Paulo: Campus-Elsevier (Exame, São Paulo: Abril, n. 961, 10 fev. 2010, p. 28).

15. Com mão de obra abundante e baixos custos, a indústria chinesa de manufaturas é uma ameaça no horizonte. Poderá no futuro desativar centros de produção em vários países, como a Rússia, diz Sergei Alexashenko, diretor da Highter School of Economics de Moscou (Valor, São Paulo, 26 fev. 2010, p. G1).

16. Os países integrantes do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) deverão ampliar sua posição como principais motores da economia global. O peso da participação dos EUA, ora com os consumidores endividados e com baixo poder de compra, será reduzido. A principal força por trás das novas locomotivas são seus mercados internos em ascensão. Se forem somadas as classes médias dos quatro países, chegar-se-á a cerca de 670 milhões de pessoas, o dobro da população norte-americana. Essas classes médias são um fenômeno importante. Ao adquirirem novos hábitos e gostos, criam demandam por bens e serviços, avalia afirma Jim O `Neill, economista-chefe do Goldman Sachs (Valor, São Paulo, 26 fev. 2010, p. G1).

China versus Brasil

17. O número de empresas brasileiras importadoras de produtos chineses aumentou de 7,2 mil em 2005 para 16,8 mil em 2009. A fatia dos produtos chineses nas importações brasileiras subiu de 7,3% em 2005 para 12,5% em 2009. No mesmo período, a participação de produtos dos EUA caiu de 17,2% para 1,57% (Valor, São Paulo, 19 fev. 2010, p. A5).

18. Há coisas da China muito boas. Se os chineses conseguem fazer produtos de qualidade com preços menores, burro é quem não os compra. Atualmente, há no mercado têxtil uma barreira muito grande para os produtos chineses. Mas (é preciso lembrar) muitos dos grandes ´designers´ internacionais produzem na China, na Índia e em outros locais com qualidade e bons preços, observa Amir Slama, presidente da Associação Brasileira dos Estilistas de Moda – Abest (Isto É Dinheiro. São Paulo: Três, n. 646, 24 fev. 2010, p. 24).

19. Os EUA têm a maior participação no PIB mundial, 23,71%, com base em 2008. A China responde por 7,1% e o Brasil, por 2,58% (Folha de S. Paulo, São Paulo, 22 fev. 2010, p. B1).

20. Em 1984, o Brasil alcançou 1,2% de participação nas exportações globais, patamar semelhante naquele ano ao da China, então iniciando seu processo de abertura. Após 25 anos, os números mudaram. O Brasil detém cerca de 1,3% do comércio mundial, mas a China destronou em 2009 a liderança da Alemanha e, com 10% do comércio global, tornou-se a maior exportadora mundial de bens e serviços do mundo. Em 2027, a China poderá superar os EUA como maior economia do mundo, afirma Jim O `Neill (Valor, São Paulo, 26 fev. 2010, p. G1).

21. O Brasil tem o melhor clima econômico no âmbito da América Latina e dos BRICs, de acordo com ´ranking´ do Índice de Clima Econômico elaborado em jan. 2010 pela FGV. Baseado no consumo interno, o País passou mais rápido pela crise e se mantém sólido. Mostra ter fôlego para crescer em níveis elevados por muitos anos, explica Aloísio Campelo, da FGV (Folha de S. Paulo, São Paulo, 23 fev. 2010, p. B6).

(*) No Brasil, o Congresso Nacional ora aprecia projetos de redução da jornada de trabalho (de 44 para 40 horas semanais) e o aumento do valor adicional da hora extra de 50% para 75% (PEC 231/1995). A CF de 1988 reduziu a jornada de trabalho de 48 (implantada em 1934) para 44 horas/semana. O Ministério do Trabalho anunciou o envio de projeto de lei sobre a terceirização de mão de obra. O art. 2º veda a contratação de serviços terceirizados na atividade fim da empresa tomadora de serviços. A discussão sobre atividade fim é arcaica, mas surreal é o dispositivo exigindo a comunicação ao sindicato da categoria profissional preponderante, com antecedência de 120 dias, da intenção de contratar prestadores, adverte Vander Morales, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços Terceirizáveis e de Trabalho Temporário – Asserttem (´O avanço do retrocesso´. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06 fev. 2010, p. A3). Inexiste insegurança jurídica quanto ao conceito de atividade fim. Já previsto na Súmula 331 do TST, a aplicação do conceito é de razoável operacionalidade no meio produtivo, defende Luciano Athayde Chaves, juiz do Trabalho, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho – Anamatra (´Contra a precarização do trabalho´. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06 fev. 2010, p. A3).