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ARTIGOS



PIANO

Um afinador de pianos é em parte cientista, em parte artista e em parte psicólogo. Um cientista, pois deve conhecer os fundamentos físicos da harmonia e da dinâmica de propagação das ondas. Um artista, pois deve ter o toque seguro de um excelente músico ao utilizar seus instrumentos. Um psicólogo, pois deve conhecer e deve saber definir as necessidades de seus clientes.

Mas essas são características desejáveis, pois a característica indispensável ao afinador é ter um bom ouvido: é ter a capacidade de discernir as variações mínimas dos sons produzidos em toda a extensão do teclado, desde as notas graves (a partir de 30 ciclos por segundo) até o ponto culminante das notas agudas (mais de 4.000 ciclos). Até os 25 anos de idade, a pessoa pode aprender as infinitas sutilezas dos sons.

Destinada a “colocar o piano no tom”, a afinação é um processo com o objetivo de colocar todos os elementos do piano num ponto de equilíbrio (em primeiro lugar, o tom correto; depois, a voz agradável, responsável pela sonoridade própria, variável de acordo com o lugar); é um processo extremamente complexo, pois um piano, um instrumento nada prático, tem mais de duzentas cordas e cada uma delas deve estar afinada num determinado tom.

Cada tom, por sua vez, deve relacionar-se com os tons das outras cordas, de forma a produzir, em toda a extensão do teclado, uma série de tons com intervalos regulares, desde a extremidade grave até a extremidade aguda.

Quando um afinador ajusta as notas de um piano, ele altera, com muita precisão, a tensão de cada corda girando a cravelha à qual ela se prende em uma de suas extremidades, até alcançar o tom desejado, mais agudo ou mais grave. A mão esquerda pressiona as teclas enquanto a mão direita gira as chaves de afinação.

Com um bom ouvido e mão certeira, um bom afinador não leva mais de uma hora ou hora e meia para deixar o piano afinado. Um bom afinador não é chamado de volta pelo cliente pouco depois, observa Luc, restaurador e comerciante de pianos usados em Paris (Luc só vende pianos a comprador recomendado por cliente. Tem por norma convidar o comprador para experimentar, tocar e examinar os instrumentos; depois, deixa-o decidir por si mesmo).

Os pianos com cravelhames (suporte das cravelhas) totalmente de metal mantêm a afinação por muito mais tempo (as cravelhas, inseridas nos cravelhames, retesam as cordas).

Um piano novo precisa de um período de maturação durante o qual ele não apenas se aclimata ao ambiente, como se adapta ao estilo e à freqüência de uso. As correntes de ar não fazem bem algum, mas a exposição direta ao calor é a morte, ensina Luc.

Um piano bem tocado, com freqüência, quase sempre atinge um equilíbrio perfeito e sua sonoridade ótima em poucos anos. Se for bem cuidado, continuará a responder adequadamente durante muitas décadas, até mesmo por várias gerações. Mas os pianos, de um modo geral, começam a deteriorar lentamente depois de um período inicial de amadurecimento. Há pianos vivos, para serem tocados, e há pianos para museus.

Em razão desse processo de vida, um concertista quer sempre tocar num instrumento no apogeu de sua transitória existência, devidamente sazonado e amaciado, além de mecanicamente perfeito. Essas condições só se mantêm durante uns poucos anos, na melhor das hipóteses. Na maioria das salas de concerto, os pianos são alugados. O piano alugado pode sempre ser substituído por outro em melhores condições.

O piano deve sempre ser tocado. É melhor ser mal tocado a não ser tocado. O piano assemelha-se bastante a um organismo vivo com necessidade de estímulos para o todo funcionar harmonicamente.

Quando é tocado, todas as suas partes estão sujeitas a vibrações e, ao longo do tempo, o efeito dessas vibrações no conjunto das partes é mais ou menos uniforme: as cravelhas apóiam-se de certa forma no bloco de cravelhas; os martelos respondem às teclas de maneira regular; o tampo harmônico se flexiona e vibra dentro dos limites esperados.

Se não for tocado, nenhuma das partes se move e o único fator atuando sobre o todo é o processo longo e lento de deterioração, agravado com as mudanças de temperatura e umidade, além da pressão constante das cordas retesadas.

Luc reconhece num piano usado: se o piano foi muito tocado ou não; se o ambiente onde esteve tinha o nível correto de umidade (uma regra de ouro); se havia criança na casa; e até mesmo se foi transportado em navio recentemente (a pior coisa possível de ocorrer com um piano).

Quando um piano é transportado para um ambiente diferente, ele sofre o choque da mudança. A mudança influi na madeira, a qual absorve quantidades diferentes de umidade, e nos pinos de afinação, os quais saem do lugar. O piano exige um certo tempo para aclimatar-se a um novo ambiente. O processo de aclimatação leva provavelmente alguns meses, até as várias peças de madeira e os encaixe começarem a respirar com um todo. Nessa fase, o piano requer uma série de afinações sucessivas para chegar ao tom desejado; é de se esperar o piano perder a afinação em pouco tempo.

Cada piano tem características absolutamente individuais, mesmo quando comparado a outros da mesma marca e da mesma idade, diz Luc.

Os pianos modernos têm 88 teclas: as “naturais” (brancas) e as “acidentais” (pretas). Pressionando-se uma tecla, uma nota é tocada e produz um som puro com um ponto de referência fixo expresso em vibrações por segundo, o mesmo para todos os pianos. A tecla faz mover o martelo e o martelo golpeia uma corda ou geralmente mais de uma corda: são 88 teclas para mais de 200 cordas, todas esticadas entre dois pontos, com bastante tensão. As vibrações da corda produzem um som correspondente a uma nota específica. Quanto maior a tensão, melhor. A tensão afeta diretamente tanto o volume quanto a qualidade da nota.

Muitos pianistas, principalmente os concertistas, preferem o teclado de marfim, porque, segundo eles, absorve o suor dos dedos e é mais suave ao toque em relação aos seus substitutos à base de polímetros. Com o tempo, o marfim das teclas fica amarelado. A utilização do marfim nos teclados foi proibida na década de 80.

A simples vibração das cordas de um piano produz um som fraco e de pouca ressonância. O tampo harmônico, uma placa de madeira grande e fina, recebe a vibração das cordas e tanto vibra também como aumenta o som. Quando um piano toca, toda a estrutura de madeira vibra e ressoa de maneira solidária aos sons produzidos pelas cordas.

Bartolomeo Cristofori, fabricante de instrumentos da corte dos Médici, em Florença, é considerado o inventor do piano. Sabe-se da existência de piano desde 1694. A invenção ocorreu em torno do ano de 1700, diz-se por consenso.

Cristofori inventou um meio de fazer uma corda, posta a vibrar, tocar mais alto. Antes, os instrumentos de teclado deixavam a desejar por várias razões: os clavicórdios produziam um som baixo, somente apropriado para ambientes pequenos; os cravos, de maior tamanho, produziam um som mais forte, mas a força com a qual se pressiona a tecla não alterava o volume do som produzido.

O piano trouxe a inovação revolucionária de traduzir o movimento de uma tecla em uma nota de volume variável: uma tecla pressionada com força produz um som forte e claro; pressionada de forma leve produz uma nota suave. O sistema mecânico do piano vem sendo aprimorado, mas, em sua essência, continua o mesmo.

Quando Johann Cristian Bach tocou seu primeiro solo de piano em 1768, na Inglaterra, esse instrumento de teclas já era um triunfo inquestionável. O período barroco cedeu passagem ao clássico e o piano foi o meio perfeito para a nova expressão da música, com a influência de Haydn, Mozart e Beethoven.

A “Hammerklavier” é a mais longa das trinta e duas sonatas de Beethoven para piano. Revelação dos limites extremos da pujança e da expressividade do piano, essa sonata é considerada a de mais difícil execução e sua obra mais visionária. Beethoven, caracterizado pela fúria dispensada aos teclados para sentir as vibrações de sua música, influenciou na manufatura de pianos.

Liszt representa a vanguarda no fenômeno da divulgação do piano. Ele gostava de dar recitais. No início, quando os pianos eram menos resistentes, sem estrutura de ferro, Liszt, ao longo de uma apresentação, poderia destroçar o instrumento utilizado, por força de uma execução não apenas enérgica, mas também obsessiva, avassaladora e arrasadora. Ele costumava ter um ou dois pianos de reserva em seus concertos.

Chopin era o oposto de Liszt em estilo de execução e preferia uma forma mais sutil de tocar. O volume do som não interessava a Chopin, criador de uma técnica revolucionária para revelar sutilezas harmônicas e rítmicas.

O piano de cauda foi imaginado por Cristofori a partir da harpa. O piano de cauda é uma harpa dentro de uma caixa, observou Leigh Hunt.

A diferença de um piano de cauda para um piano de armário é quanto ao plano vertical ou horizontal do tampo harmônico e as cordas em relação ao teclado: no piano de armário, o plano é vertical; no piano de cauda, o plano é horizontal, possibilitando a vantagem de cordas mais longas e sensíveis. Em Paris, devido à área relativamente pequena da maioria dos apartamentos, os pianos de armário são mais procurados e, em conseqüência, são mais valorizados.

O piano oficial da Casa Branca é um “Steinway”, modelo D, americano, de 1930, com gabinete em mogno natural e três pernas douradas no feitio de águias. Napoleão III deu um belo “Bosendorfer” (austríaco) à sua imperatriz Eugénie. O czar Nicolau ofereceu à sua Alexandra um “Schroeder”. São outras grandes marcas de pianos: a inglesa “Broadwood”, a americana “Chickering”, a alemã “Bechstein”, a austríaca “Stingl”, as francesas “Erard” e “Pleyel”.

A Alemanha, avalia Luc, é o único país ainda a produzir uma grande variedade de pianos e mantém uma tradição de excelência no trabalho artesanal. Basta ver as marcas: Bechstein, Grotrian, Steingraeber, Bluthner, Ibach, Forster, Schimmel, Thurmer, Sauter, Seiler.

Uma das melhores marcas de piano do mundo atualmente é a italiana “Fazioli”. São instrumentos extraordinários, praticamente feitos à mão, com produção limitada, comenta Luc, o qual acrescenta: são os pianos mais caros do mundo; um “Fazioli” de cauda para concertos custa mais de US$ 100 mil. A produção foi iniciada em 1980 sob a condução de Paolo Fazioli, preocupado em dar sonoridade própria aos seus pianos.

Essa sonoridade própria, explica Paolo Fazioli, é viabilizada quando se busca dar equilíbrio a muitos sons, geralmente não ouvidos, de extrema suavidade e de elevada sutileza. A importância desses sons para a sonoridade do piano lembra a capacidade de grandes conhecedores de vinho de apreciar todas as sutilezas de uma grande safra: ninguém precisa saber dessas sutilezas para apreciar um vinho excelente, mas o fabricante do vinho precisa reconhecê-las a fim de aperfeiçoar sua arte.

Sem qualquer hesitação, Paolo Fazioli aponta a qualidade mais importante de um piano: o som produzido ao ser tocado.

Resumo do livro “A loja de pianos da Rive Gauche”, da autoria de T. E. Carhart (Rio de Janeiro: Record, 2001, 288 p.)