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ARTIGOS



CRISE & CAPITALISMO

Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise por mim enfrentada, o sucesso das pessoas e empresas é definido pela capacidade de transformar uma crise numa oportunidade, uma coisa realmente muito difícil de fazer. O melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise. A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas, assinala Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs (Valor, São Paulo, 17 mar. 2009, p. F10).

2. O governo do Reino Unido assumirá participação de até 77% do conglomerado Lloyds Banking Group, terceiro maior banco do País. No Royal Bank of Scotland – RBS, o governo já conta com 70% das ações e poderá ampliar a participação para até 95%. O governo resolveu assumir os riscos dos papéis tóxicos (com risco de perder grande valor) em troca de um pagamento ou de ações dos bancos. O objetivo é a retomada dos níveis normais de concessão de créditos (Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 mar. 2009, p. B9).

3. O mercado imobiliário sinaliza reação nos EUA. No primeiro resultado positivo em sete meses, a construção de residência avançou 22% em fev. ante jan./2009. O setor imobiliário foi o centro da atual crise econômica dos EUA, o pior ciclo negativo em 70 anos (Folha de S. Paulo, São Paulo, 18 mar. 2009, p. B9).

4. Nos EUA, o Federal Reserve – FED anunciou mais uma injeção de dinheiro novo no mercado, de até US$ 1 trilhão. O FED se dispõe a empregar todas as ferramentas possíveis para promover a recuperação econômica e controlar a inflação. O FED também manteve o juro básico próximo de zero (Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 mar. 2009, p. B7).

5. O Departamento do Tesouro dos EUA detalhou seu plano de até US$ 1 trilhão para restaurar o mercado de crédito. O plano prevê a retirada dos ativos tóxicos das carteiras de crédito dos bancos por meio da venda desses ativos a investidores privados, mediante leilão. Antes, o FDIC avaliará os papéis e decidirá o percentual a ser garantido aos investidores privados (Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mar. 2009, p. A1).

6. A crise aconteceu nas barbas de multidões de analistas financeiros, economistas, comentaristas, banqueiros, reguladores. Sofisticados modelos de avaliação de risco falharam. A crise teria sido efeito da crença cega no mercado. Culpa-se tolamente o neoliberalismo. Mas não existe livre mercado no sistema financeiro. Na verdade, o detonador da crise nasceu de intervenção do Estado, qual seja a norma pela qual se financiou a casa própria para milhões de americanos sem condições de pagar, observa Maílson da Nóbrega (´Crise: como chegamos a este ponto´. Veja, São Paulo: Abril, n. 2103, 11 mar. 2009, p. 106).

7. Desde o início do atual sistema financeiro, nascido por volta do século XVII, crises existem. Foram mais de 300, uma por década em média. O sistema opera alavancado e descasado. Mas ao calcular riscos e selecionar clientes, contribui para o melhor uso dos recursos e, em consequência, para aumentar a produtividade. Assim, o sistema turbina a economia, mas se sujeita a crises periódicas. Felizmente, entre as crises o mundo progride. Até porque elas são prova da inventividade, da curiosidade e do gosto pelo desafio a marcar a experiência humana. Depois das crises, a regulação se renova. Até a próxima crise (id.).

8. A excessiva confiança, por conta de uma década de bons resultados, deu lugar à arrogância e à cegueira coletiva quanto aos riscos, observa Andrez Haldane, diretor do Banco da Inglaterra, em estudo recente. Banqueiros, analistas e reguladores foram afetados. Uma das razões para explicar tal situação, segundo Haldane, é a miopia em face do desastre. Significa a propensão a subestimar a probabilidade de eventos adversos, especialmente dos tipos ocorridos em passado distante. Motoristas reduzem a velocidade quando presenciam um acidente, mas tendem a acelerar quando o desastre fica mais distante na sua memória (id.).

9. A quebra de uma indústria é um assunto restrito a seus funcionários, clientes, credores, fornecedores e acionistas. Mas a quebra de uma grande seguradora ou banco é um fenômeno de outra natureza: espalha o medo, congela o crédito, estanca todos os setores da economia. Na crise de 1929, as sucessivas falências dos bancos nos EUA provocaram uma paralisia geral na economia e aprofundaram a recessão. A estabilidade do sistema financeiro é a chave para manter a economia girando e, se não há capital privado suficiente, o último recurso é mesmo a intervenção do Estado. Assim, o governo americano já injetou cerca de US$ 350 bilhões no resgate do sistema financeiro. O Tesouro dos EUA aumentou sua participação no Citi de 8% para 36%, em fev./2009, e se tornou o maior acionista individual, assinala Guilherme Fogaça (´Por que salvar o sistema financeiro´. Exame. São Paulo: Abril, n. 938, 11 mar. 2009, p. 116).

10. As economias baseadas no livre mercado oferecem melhorias reais no padrão de vida das pessoas. Seria um erro grosseiro desistir desse modelo apenas por causa da crise econômica. Os problemas ora enfrentados, porém, podem reforçar a necessidade de uma regulação mais efetiva dos mercados financeiros com o objetivo de funcionarem adequadamente e produzirem crescimento econômico. Os mercados devem ser livres, mas não podem ser livres de valores éticos. O governo britânico interveio no setor bancário para garantir a continuidade do apoio às famílias e aos empresários, diz Gondon Brown, primeiro-ministro da Inglaterra (Veja, São Paulo: Abril, n. 2.105, 25 mar. 2009, p. 17).

O termo ´capitalismo´ não foi inventado por Adam Smith, como se pensa. A ele coube a primazia de teorizar sobre a economia de mercado. O termo teria sido utilizado pela primeira vez por Karl Marx para descrever pejorativamente a ´elite da sociedade burguesa´, detentora dos ´recursos de capital da sociedade´. Não há alternativa ao sistema capitalista. Nenhum outro libera tanto as energias produtivas da sociedade nem o supera na geração de renda, emprego e bem-estar. Ao longo do tempo, o capitalismo mostrou capacidade de aprender lições, de reinventar-se, de superar crises e de sobreviver aos seus críticos, principalmente Marx e seus seguidores, observa Maílson da Nóbrega (Veja, São Paulo: Abril, n. 2.105, 25 mar. 2009, p. 101).