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ARTIGOS



CRISE FINANCEIRA GLOBAL

A crise global está atingindo o Brasil pela redução da demanda nas vendas externas, mas não há danos estruturais no sistema financeiro e tampouco perdemos a capacidade de usar a política monetária para enfrentar o ciclo econômico. Uma coisa é o carro parar por falta de gasolina. Bem diferente é parar por um defeito no motor. Não se trata de subestimar a crise atual, a mais intensa desde o desastre de 1929, entretanto o Brasil reúne condições de enfrentá-la com poucos danos à sua capacidade de crescimento no curto e médio prazos, analisa Gustavo Loyola (Valor, São Paulo, 05 jan. 2009, p. A11).

2. Uma das boas notícias do início do ano está relacionada com a retomada da normalidade em alguns segmentos do mercado financeiro internacional. Os ´spreads´ de juros dos mercados interbancários mais importantes voltaram para a situação anterior à falência do Lehman. Um sinal da diminuição do pavor nas relações entre os bancos privados no mundo. Já podemos notar sinais de normalização dos mercados interbancários e alguma vida nas operações com títulos privados de alta qualidade, afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros (´Todos os olhos para a economia americana´. Folha de S. Paulo, São Paulo, 09 jan. 2009, p. B2).

3. O crescimento do PIB mundial em 2009 será de 0,6%, de acordo com projeção do Goldman Sachs. Esse crescimento deriva de uma projeção de alta de 4,7% para o PIB dos Brics. Eles serão a única fonte de crescimento de demanda interna no planeta em 2009. Participam com 15% do PIB mundial e podem estar perto de responderem por 20% ao final da década, afirma Jim O ´Neill, do Goldman Sachs (Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 jan. 2009, p. B2).

4. O papel do Banco Central é tirar a jarra de bebida exatamente quando a festa começa a ficar animada, ensinou William McCheney Martin Jr., presidente do FED de 1951 a 1970. Mas Alan Greenspan, presidente do FED de 1987 a 2006, esqueceu-se dessa máxima e, se não ajudou a animar a festa, limitou-se a adotar medidas para evitar a ressaca, de modo a todos estarem prontos e dispostos para procurar a próxima festa (`Sem lugar para festas´. Valor, São Paulo, 09 jan. 2009, Eu & fim de semana, p. 4).

5. Não cabe aos bancos centrais julgar se uma alta de preços de ativos é excessiva ou não, segundo Greenspan. São fenômenos localizados e fadados à reversão por sua própria dinâmica. O papel dos bancos centrais deve limitar-se ao de observadores durante as fases de euforia. Uma vez exauridas, a política macroeconômica deve ser conduzida para minimizar os estragos. Os bancos centrais então relaxam a política monetária e baixam a taxa de juros. Essa posição de Greenspan era a dominante entre os economistas (id).

6. Assim como a festa americana contagiou o mundo, seu fim interrompeu as festas mais distantes. O fator detonador da crise atual foi a exaustão do ciclo de alta dos imóveis nos EUA. Para o Brasil a crise começou no último trimestre de 2008 quando a quebra do Lehman Brothers interrompeu o crédito comercial internacional. Estamos relativamente bem, ajudados tanto pelo dever de casa feito nos últimos anos, como pela sorte de termos chegado tarde para a festa. Fora do epicentro, seremos atingidos de forma menos intensa, mas sobretudo defasada, conclui André Lara Resende, ex-diretor do BCB e ex-presidente do BNDES (id.).

7. Grandes economias reduziram os juros básicos depois da quebra do Lehman Brothers em 15 set. 2008: China, de 7,47 para 5,31; EUA, de 2,00 para 0 a 0,25; Japão, de 0,50 para 0,10; Reino Unido, de 5,00 para 1,50; Zona do euro, de 4,25 para 2,50. A taxa britânica é a menor em 315 anos (Folha de S. Paulo, São Paulo, 09 jan. 2009, p. B5).

8. Até dois anos atrás, todos estávamos apaixonados por dois conceitos: 1º) o mundo era estável, sem volatilidade; 2º) os ciclos tinham acabado. As pessoas acreditaram nesses conceitos e consideravam apenas ruídos os problemas indicados pelos mercados. Agora, aprendemos a importância de levar a sério os sinais oriundos dos mercados. Neste novo mundo, os investidores, ao buscarem novos destinos para o seu dinheiro, devem evitar ser um ´vendedor no estresse´ (livra-se dos papéis quando tem de fazê-lo e não quando quer). O caminho à frente será acidentado, mas o investidor poderá tirar proveito dos obstáculos e não sofrer por causa deles, alerta Mohamed El-Erian, diretor-executivo da Pimco, uma das maiores administradoras de recursos do planeta (Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 jan. 2009, p. A14).

9. A preocupação não é mais com a inflação e sim com a demanda, e o BCB é um dos poucos bancos centrais sem esse entendimento. A desvalorização do câmbio seria um risco para os preços se a economia estivesse operando a plena capacidade, mas no momento ocorre o contrário: a produção está em queda e as demissões, em alta. A forte alta do dólar foi a única coisa positiva ocorrida nos últimos meses no Brasil, pois a taxa de câmbio estava excessivamente valorizada. Ao lado da queda dos juros, o impacto do câmbio depreciado pode dar algum alento à atividade econômica, principalmente por conta de eventual substituição de produtos importados por similares domésticos, em face do aumento nos preços dos bens produzidos no exterior, comenta Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido (Valor, São Paulo, 14 jan. 2009, p. A12).

10. O governo dos EUA ofereceu ao Bank of America, maior banco do País, ajuda de US$ 117,2 bilhões do Tesouro (equivalente a 9% do PIB brasileiro em 2007). Vista como compensação à compra do Merrill Lynch (US$ 40 bilhões, em 14 set. 2008), essa ajuda destina-se à garantia de uma cesta de ativos. A deterioração dos ativos do Merrill Lynch superou as expectativas. Além disso, o governo promete injetar mais US$ 20 bilhões em troca de ações preferenciais (Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 jan. 2009, p. A1).

11. O Citigroup, terceiro maior banco americano, resolveu dividir suas operações em duas partes: uma parte (Citicorp) abrangerá as operações tradicionais (banco comercial, cartão de crédito, dentre outras); a outra parte (Citi Holding) ficará com os ativos arriscados (Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 jan. 2009, p. B1).

12. O capitalismo cria perturbação e incerteza. Mas não devemos perder de vista o outro lado da moeda. O capitalismo é o único a estimular os empreendedores a conceber novas idéias e desenvolvê-las para o mercado, bem como a despertar o entusiasmo dos consumidores quando descobrem o novo. Talvez a maior realização do capitalismo esteja em transformar o lugar de trabalho de um templo de rotina e tédio num pólo de mudanças, estímulo mental, desafios, solução de problemas, estudo e, ocasionalmente, descoberta. Embora 2008 tenha sido um ano de desafios para a economia mundial, os países valorizadores da inovação fariam bem em manter o capitalismo, conclui Edmund Phelps, diretor do Centro do Capitalismo e Sociedade da Universidade Columbia, Nobel de Economia em 2006 (´O capitalismo tem futuro´. Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 jan. 2009, p. B6).

13. A crise afetou o Brasil por meio de três canais: 1º) crédito (o crédito externo secou; mais ainda: o sistema bancário não pode aferir o impacto dos prejuízos cambiais das empresas e, então, a percepção de risco aumentou e a concessão de crédito quase parou; os bancos pequenos e médios deixaram de fornecer crédito, à falta de ´funding´; pagamento de dívidas no exterior pelas empresas nacionais; remessa de capital de giro para as matrizes pelas filiais locais de multinacionais); 2º) câmbio (desvalorizou de imediato e causou problemas); e 3º) exportação (a demanda por ´commodities´ desmontou e os preços caíram) (Valor, São Paulo, 21 jan. 2009, p. A12).

14. Nos meses anteriores, as operações de capital de giro com derivativos cambiais se haviam generalizado no mercado, e a maior parte dessas operações ainda não foi acertada até hoje. Para estimular a demanda, a primeira opção do governo é baixar os juros (o ciclo de baixa pode alcançar três pontos). O crescimento da nossa economia poderá alcançar 2% em 2009. O preço da crise no Brasil será inferior ao de outros países, porque aqui os bancos não vão quebrar e não será necessária uma reestruturação profunda no sistema produtivo, de acordo com José Roberto Mendonça de Barros (id.)

15. O mercado, e não importa se ele é uma força para o bem ou para o mal, não tem igual em seu poder de gerar riqueza e de ampliar a liberdade. Mas, sem um olhar atento a vigiá-lo, o mercado pode sair de controle, como nos fez recordar esta crise. Um país não pode prosperar por muito tempo quando favorece unicamente os prósperos. O sucesso de nossa economia sempre dependeu não apenas das dimensões de nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance de nossa prosperidade, de nossa capacidade de oferecer oportunidades a todos aqueles dispostos a aproveitá-las, não por caridade, mas porque esse é o caminho mais certeiro para o bem comum, disse Barack Obama em seu discurso de posse (Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 jan. 2009, Especial, p. A2).

16. O Banco Central do Brasil tem uma história de regulação prudencial cuidadosa. Esse cuidado evitou a ocorrência de disfuncionalidades e exageros, como aconteceu agora em outros países do mundo. O Brasil é considerado um dos países de melhor controle regulatório do mundo. Os fundamentos da economia, além do controle regulatório sobre o mercado, possibilitam ao Brasil enfrentar a crise em melhores condições, seja em comparação a outros países, seja em comparação ao passado, afirma Henrique Meireles, presidente do Banco Central do Brasil (`10 anos de câmbio flutuante no Brasil´. Disponível: <http://www4.bcb.gov.br/Pec/ApPron/Apres/10AnosDeCambioFlutuantevf.pdf>. Acesso em: 24 jan. 2009).

17. A inadimplência das pessoas jurídicas cresceu 36,1% em dez. de 2008, ante dez. de 2007, segundo o indicador Serasa Experian. No mesmo período, a inadimplência das pessoas físicas aumentou 12,8% (Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 jan. 2009, p. B1).

18. A questão da liquidez está, na maior parte, normalizada, em comparação a setembro e outubro de 2008, quando houve um problema importante de liquidez. O Banco Central do Brasil utilizou a liberação de R$ 33 bilhões dos depósitos compulsórios para garantir a normalidade, afirma Henrique Meirelles, presidente do BCB (Folha de S. Paulo, São Paulo, 02 fev. 2009, p. B1).

A nova regulamentação bancária assegurará mais transparência aos balanços das instituições financeiras. Todos os riscos deverão estar registrados e, a partir daí, exigir-se-á alocação de capital para a cobertura de todos esses riscos. As novas normas deverão determinar limites mais rígidos para a alavancagem e mais responsabilidade para os administradores, explica Henrique Meirelles, presidente do BCB (Valor, São Paulo, 02 fev. 2009, C8).