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ARTIGOS



CRISE NOS MERCADOS FINANCEIROS DOS EUA (SET. 2008)

A crise financeira dos EUA teve os seus momentos mais agudos em setembro findante, quando ocorreram fatos de grande impacto:

a) em 07 set. 2008, o governo decretou intervenção na ´Fannie Mae´ e ´Freddie Mac´, as duas maiores empresas do setor de crédito imobiliário(*);

b) em 14 set. 2008, o mercado antecipa a quebra do Lehman Brothers, fundado em 1850, quarto maior banco de investimento (concordata requerida em 15 set. 2008), e o Bank of America salva o Merrill Lynch, o terceiro maior banco de investimento (aquisição por US$ 50 bilhões ou 2/3 do valor de mercado);

c) em 16 set. 2008, o governo dos EUA injeta US$ 85 bilhões para salvar da concordata a American International Group Inc.- AIG, a maior seguradora;

d) em 18 set. 2008, o governo anuncia a elaboração de plano para o saneamento dos ativos dos bancos, com recursos de US$ 700 bilhões (Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 set. 2008, p. B9).

2. Dos cinco maiores bancos de investimento, sobraram apenas dois: Goldman Sachs e Morgan Stanley [†] (Isto É Dinheiro, São Paulo: Três, n. 573, 24 set. 2008, p. 39).

3. Os bancos de investimento tinham muita liberdade, não tinham de observar as regras prudenciais, não tinham limites de alavancagem, explica Francisco Gros, ex-presidente do BCB e ex-vice-presidente do Morgan Stanley (Diário do Nordeste, Fortaleza, 23 set. 2008, p. 5).

4. O Merrill Lynch acusava índice de alavancagem de 31; o Lehman Brothers, de 30; o Goldman Sachs, de 25; e o Citigroup, de 18. O índice recomendado pelo BIS é de 12 (Veja, São Paulo: Abril, n. 2079, 24 set. 2008, p. 134)

5. Na Grande Depressão (1928-1933), 11 mil bancos fecharam as portas. Hoje, os EUA têm cerca de 8.500 bancos. Mas, ao fim da atual crise, só devem sobrar uns 4 mil, avalia Ken Lewis, presidente do Bank of America (Diário do Nordeste, Fortaleza, 23 set. 2008, p. 5).

6. O plano de saneamento consistirá na desintoxicação dos balanços dos bancos com a retirada dos ativos pobres, explica Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA (Veja, São Paulo: Abril, n. 2079, 24 set. 2008, p. 126).

7. O Tesouro efetuará a compra dos ativos relacionados com hipotecas. A solução é uma adaptação da aplicada na crise de 1989 com as ´savings and loans´, quando o governo criou uma empresa para absorver e depois revender os papéis de companhias de crédito imobiliário, então em dificuldade por conta da alta de juros. A operação custou ao Tesouro US$ 125 bilhões, muito menos das previsões iniciais (Veja, São Paulo: Abril, n. 2079, 24 set. 2008, p. 132)

8. Diante do estado precário de nossos mercados financeiros e considerando a importância fundamental deles na vida do povo americano, a intervenção do governo não é só necessária, mas também é essencial, disse o presidente George W. Bush (Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 set. 208, p. B5). Os recursos previstos até agora para atender as intervenções poderão chegar a US$ 1,5 trilhão ou cerca de 10% do PIB dos EUA (id.).

9. De jan. a ago. de 2008, houve 1,694 mil ordens de despejo. A crise, há vários meses, tem sido devastadora para os americanos inadimplentes com o pagamento das prestações de seus imóveis. Nos EUA, o processo de retomada do imóvel é rápido e indiscutível (Diário do Nordeste, Fortaleza, 23 set. 2008, p. 5).

10. Desde 2007, bancos e outras instituições financeiras já registraram mais de US$ 520 bilhões em perdas contábeis, para fins de observância das regras do valor justo (marcação a mercado). O valor justo força os preços para baixo numa espiral descendente interminável e vem sendo um completo desastre, disse Edwad Yingling, presidente da ´American Bankers Association´ (Valor, São Paulo, 23 set. 2008, p. D6). Enquanto a economia estiver em crise, o governo, segundo grupos do setor bancário, deveria neutralizar o impacto negativo da regra do valor do justo. Mas essa proposta envolve apenas um antigo conflito entre a direção das companhias abertas, desejosas de controlar a oscilação de preços, e os investidores, desejosos por transparência, comenta Donald Young, ex-membro do Conselho de Padrões de Contabilidade Financeira dos EUA, o Fasb, em inglês (id.).

11. O Brasil está numa situação tranquila. Diferentemente de outros momentos, não depende de fluxo de capital externo. Não teremos uma crise no Brasil por causa da crise externa. Mas, como fazemos parte de um mesmo planeta, certamente seremos atingidos por conta do menor ritmo da economia mundial. Seremos afetados de forma razoável, ainda mantendo o crescimento em torno de 3,5%, avalia Roberto Setúbal, presidente do Banco Itaú (Valor, São Paulo, 22 set. 2008, p. C5).

12. Uma crise nos EUA não é boa para ninguém. Estamos trabalhando para os efeitos serem os menores possíveis no Brasil, assinala Henrique Meirelles, presidente do BCB (Exame, São Paulo: Abril, n. 927, 24 set. 2008, p. 38).

13. O Banco Central tem como missão fundamental manter a inflação consistente com a trajetória de metas e, também, manter a solidez do sistema financeiro nacional. Ambas são prioridades, explica Henrique Meirelles (Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 set. 2008, p. B4).

14. O Brasil enfrenta apenas uma restrição de liquidez, em face da restrição da oferta de linhas de crédito em dólares, como, aliás, ocorre no mundo todo, em razão da crise do sistema bancário americano, continua Henrique Meirelles (id.). A situação (prossegue) é completamente diferente da dos EUA, onde os bancos enfrentam prejuízos substanciais. As perdas de crédito no Brasil não mostram avanços significativos (id.).

15. Num ambiente de desaceleração do crescimento mundial, afigura-se natural a economia brasileira passar também por alguma acomodação da atividade. Nosso ciclo não é totalmente independente do das economias maduras, conclui Henrique Meireles (id.).

16. O Brasil, pelo ótimo trabalho feito ao longo dos últimos anos, talvez seja uma das melhores economias neste momento, mas não vai ter muito jeito de escapar. Dois importantes canais de crescimento do Brasil eram a expansão do crédito e o aumento do investimento. Os dois vão sofrer algum impacto. A crise vai passar por aqui, mas de maneira muito mais amena em relação a outros lugares. O Brasil vai continuar em expansão, conclui André Esteves, ex-executivo do Banco Pactual e do UBS (Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 set. 2008, p. B6).

17. Os legisladores americanos alcançaram um acordo sobre os detalhes do plano de US$ 700 bilhões, a ser votado hoje no Congresso dos EUA, anunciou Judd Gregg, senador republicano (Diário do Nordeste, Fortaleza, 29 set. 2008, p. 18).

18. Mas surpresa na segunda-feira, em 29 set. 2008: a Câmara dos Representantes rejeitou o plano (228 votos a 205).

19. Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA, anunciou o início dos trabalhos para chegar a um texto, o mais rápido possível, com possibilidade de aprovação pelo Congresso (Diário do Nordeste, Fortaleza, 30 set. 3008, Negócios, p. 3).

20. O pacote de resgate era desesperadamente necessário e, a despeito de suas deficiências, poderia alterar o curso dos acontecimentos. A idéia era a de propiciar alívio ao sistema bancário com o governo assumindo os títulos tóxicos dos bancos e mantendo-os num fundo público, de modo a não serem despejados no mercado a preços cada vez menores. Mas, ao invés de apenas adquirir ativos problemáticos, o grosso do dinheiro deveria ser usado para recapitalizar o sistema bancário. Recursos injetados em nível de capital produzem mais efeito e também poderiam atrair investidores privados, de acordo com a análise de George Soros (´Como recapitalizar o sistema bancário´. Folha de S. Paulo, São Paulo, 02 out. 2008, p. B11).

21. O presidente George W. Bush sancionou em 03 out. 2008 a lei sobre o plano de gastos de até US$ 700 bilhões (aprovada em 01 out. 2008 pelo Senado e em 03 out. 2008 pela Câmara dos Representantes).

22. O plano é vital para ajudar a economia americana a superar a tempestade financeira, disse Bush (Diário do Nordeste, Fortaleza, 04 out. 2008, Negócios, p. 4).

23. O povo americano vai apreciar a decisão de seus representantes na ousada ação para conter a atual crise, ameaçadora dos empregos e do crédito. A lei contém amplo conjunto de ferramentas destinado a fortalecer as instituições financeiras, assinalou Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA.

24. A lei não resolve todos os nossos problemas, mas, se não tivesse sido aprovada, teria sido um desastre completo, comentou Warren Buffett (Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 out. 2008, p. B1).

25. Nos EUA, o setor financeiro e o imobiliário têm, há tempos, uma relação íntima. No Brasil, em contraste, até pouco tempo atrás o setor financeiro queria distância do mercado imobiliário por razões legais, entre as quais a dificuldade de retomada do imóvel em caso de inadimplência. Só com a mudança do marco legal, quando o financiamento de imóveis ficou mais parecido com o de automóveis, os bancos voltaram a realizar operações de crédito imobiliário, ainda restritas aos melhores devedores (´prime´), observa Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central do Brasil, economista-chefe para a América Latina do Banco Santander (Veja, São Paulo: Abril, n. 2078, 17 set. 2008, p. 101).

26. O Brasil faz parte do mundo e não pode deixar de ser afetado pela crise. A redução na disponibilidade de dólares no mercado já tem prejudicado alguns setores dependentes de crédito à exportação. O efeito ainda é marginal. As linhas externas representam apenas de 5% a 10% do total da carteira de crédito no Brasil. Se houver uma redução na atividade nos EUA e na Europa, pode-se esperar impacto nas exportações brasileiras. Mas não deve acontecer quebra de bancos no Brasil. O sistema de regulação do Banco Central do Brasil é muito mais completo e complexo comparativamente ao dos EUA. Aqui todas as instituições financeiras são regulamentadas, não apenas os bancos comerciais, mas também os bancos de investimento, as financeiras, as empresas de ´leasing´, o consórcio. A supervisão é muito rígida. E os bancos brasileiros são muito menos alavancados em relação aos americanos e europeus, conclui Fábio Barbosa, presidente da Federação Brasileira de Bancos – Febraban (Isto É Dinheiro. São Paulo: Três, n. 575, 08 out. 2008, p. 48).

Newton Freitas

Presidente do Conselho Diretor da Associação de Bancos do Estado do Ceará (ABANCE)

<http://www.newton.freitas.nom.br/>

newtonfreitas@terra.com.br



([*]) O governo dos EUA, por meio da Agência Federal de Financiamento Imobiliário, decretou intervenção federal na ´Fannie Mae´ e ´Freddie Mac´, as duas maiores empresas do setor de crédito imobiliário. Juntas, elas detêm metade do mercado de hipotecas dos EUA. A inadimplência atingiu 9,2% dos financiamentos, o mais alto percentual nos últimos 39 anos. O governo também anunciou a destinação de até US$ 200 bilhões para a compra de ações preferenciais das duas empresas (Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 set. 2008, p. B1).

A ´Fannie Mae´ e a ´Freddie Mac´ têm atuação no refinanciamento das hipotecas. Mobilizam mais US$ 13 trilhões, o mesmo valor do PIB dos EUA. São pessoas jurídicas híbridas. Embora empresas privadas, recebiam subsídio público, tinham funções públicas de garantidoras do mercado hipotecário, eram fiscalizadas pelo Congresso, explica Mirian Leitão (Diário do Nordeste, Fortaleza, 13 set. 2008, Negócios, p. 11).

Criada em 1938 pelo presidente Roosevelt, a ´Fannie Mae´ (Federal National Mortgage Association) reaninou o setor de construção. O presidente Lyndon Johnson a privatizou em 1978. Para atenuar críticas ao monopólio tutelado, o presidente Lyndon Johnson criou em 1980 a ´Freddie Mac (Federal Home Mortgage Corporation) (Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 set. 2008, p. A3).

[†] O FED autorizou em 21 set. 2008 a transformação de ambos em bancos comerciais.