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ARTIGOS



QUERER E PODER

O querer e o poder, se divididos, são nada; juntos e unidos, são tudo.

O querer sem o poder é fraco. O poder sem o querer é ocioso.

O querer com o poder é eficaz. O poder com o querer é ativo.

Se queremos, podemos. Mas só Deus pode o quanto quer. Só em Deus o poder e o querer são iguais.

No homem, o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite.

Ajustar o querer com o poder, assim como o poder com o querer, é uma das mais importantes matérias a ensinar ao mundo, da qual depende a felicidade humana.

A causa principal de todas as ruínas e males do mundo é não acabarem os homens de concordar o seu querer com o seu poder.

A raiz desse veneno mortal é a inclinação natural com a qual toda a criatura dotada de vontade livre, não só apetece sempre ser mais que é, senão também querer mais que pode. Mas quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem. Quem ajustar o seu querer com o seu poder, poderá quanto quiser, porque só quererá quanto pode.

São modos de concordar o querer com o poder: 1º) querer cada um só o que pode (conveniente); 2º) querer mais do que pode (errado e arriscado); e 3º) querer menos do que pode (excede com grandes vantagens e maior segurança as mesmas conveniências do primeiro).

Devemos empreender e fazer coisas grandes, as maiores e as mais admiráveis, mas dentro da esfera ou da proporção de nosso poder, porque fora dela não faremos nada.

Absalão, galhardo mancebo, terceiro filho de David, porque lhe quis tirar a coroa da cabeça e pô-la na sua, como não devia nem podia, teve trágico fim, pendurado no bosque Afraim num carvalho pelos cabelos e trespassado pelo peito com três lanças.

Nabucodonosor, o mais poderoso monarca do mundo, porque quis ser e ter mais poder do que podia, Deus o fez andar sobre quatro pés, pascendo feno e bebendo do rio com os brutos.

Se Deus deu-te pouco, contenta-se com o pouco, que é o que te convém e não queiras muito. Se Deus deu-te muito, contenta-se com esse muito e não queiras mais, porque nesse mais esconde-se a tua perdição.

Devemos ajudar as nossas ações com as nossas forças e com o nosso poder, porque se para fazermos maiores obras quisermos mais poder, elas nem serão maiores nem obras.

Só quem quer menos do que pode é sempre poderoso, porque quem quis quanto poderia encheu a medida do seu poder e não pode passar daí. Porém quem quer menos do que pode, sempre pode mais do que quer.

A natureza dispôs a mão maior que o coração, assim como o coração é um e as mãos são duas, porque o coração é o instrumento do querer e as mãos são os instrumentos do poder. No coração, está a deliberação da vontade. Nas mãos, a execução das obras. A mão é maior que o coração, bem como o coração é um e as mãos são duas, para sempre podermos mais do que queremos e nunca queiramos tanto quanto podemos.

Deus, inobstante todos os cabedais de sua onipotência, tudo faz com a vara, com balança e com a pena na mão: com a vara para a medida, com a balança para o peso e com a pena para o número.

Padre Vieira in ´Sermão da terceira dominga´ (´Sermões´ - volume I. Porto (Portugal): Lello & Irmão Editores, 1959, p. 116).

P.S.:

´A quem pouco não basta, nada basta´, disse Epicuro (341 a.C.-270 a.C.) (Época, São Paulo: Globo, n. 453, 22 jan. 2007, p. 70).