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ARTIGOS



GERARDO MELLO MOURÃO

(Ipueiras, CE, 08 jan. 1917 – Rio de Janeiro, RJ, 09 mar. 2007), poeta e escritor cearense, escreveu obras como ´Peripécias de Gerardo´ (1972), vencedor do Prêmio Mário de Andrade, da Associação Paulista de Críticos de Arte, e ´Invenção do mar´ (1998), ganhador do Prêmio Jabuti. Um dos poucos brasileiros indicados ao Prêmio Nobel de Literatura (indicação em 1977), ingressou aos 11 anos no seminário holandês dos redentoristas, em Congonhas do Campo (MG), e, aos 17 anos, tomou o hábito dos Padres de Santo Afonso, no Convento da Glória, em Juiz de Fora (MG). Ao longo da vida, veio a falar nove idiomas, dentre as quais holandês, latim e grego. Deixou o convento e ingressou em curso de Direito (não concluído). Influenciado por Tristão de Athayde, filiou-se à Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista, com traços de direita, e passou a dedicar-se ao jornalismo e a dar aulas em colégios. O envolvimento com o integralismo fez ser detido inúmeras vezes entre 1938 e 1945, ano do fim do Estado Novo. Em 1942, acusado de colaborar com nazistas, foi condenado à morte, pena reduzida a 30 anos de prisão, dos quais cumpriu menos de seis. Duas vezes deputado federal, eleito por Alagoas, teve seus direitos políticos cassados em 1969 pelo regime militar. Na década de 1980, foi presidente da Rio Arte e secretário de Cultura do Estado do Rio, além de correspondente da Folha de S. Paulo em Pequim entre 1980 e 1982 (Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 mar. 2007, p. C13).

Localizada no pé da serra da Ibiapaba, Ipueiras era um núcleo vivo da história dos Mellos e dos Mourões, duas famílias a dominar, a seu tempo, toda a serra. A partir do século XVII, formaram um clã parental com duração até hoje. Os Mellos eram, de início, a família mais rica da serra e trouxeram as fumaças da mais antiga aristocracia portuguesa. Casados entre si, Mellos e Mourões eram uma família só, viviam em armas e faziam a executavam as leis, até a guerra movida contra eles pelo visconde de Aracati, governador do Ceará, lembrou Gerardo Mello Mourão em entrevista de 24 out. 1996 (Diário do Nordeste, Fortaleza, 12 mar. 2007, Caderno 3, p. 4/5).

´Não podemos tomar consciência da Nação e de sua grandeza, enquanto não se criar aqui uma Paidéia, uma educação para o desenvolvimento do homem, sem a qual não pode haver desenvolvimento da Pólis´, sentenciou Gerardo Mello Mourão, distinguido em 1993 com o título de ´Doutor Honoris Causa´ pela Universidade Federal do Ceará e laureado em 1996 com a ´Sereia de Ouro´, do Sistema Verdes Mares. Membro da Academia Brasileira de Filosofia, foi eleito em 1997 o poeta do século XX pela Guilda Órfica, secular irmandade internacional de poetas (id.).

´Algumas pessoas pensam que sou o grande poeta do Brasil, mas o grande poeta do Brasil é o Gerardo Mello Mourão´, afirmou Carlos Drummond de Andrade (id.).

Vinhos, Cristais e Violinos

Carta do poeta Gerardo Mello Mourão a Newton Freitas acerca de sua obra, o Dicionário Oboé de Vinhos.

“O Rio se civiliza” - repetia todo mundo, nas ruas e nos jornais, aí pelo tempo do prefeito Pereira Passos, que construiu a Avenida Rio Branco, e quando a cidade começou a conviver com teatros novos, cabarets franceses, cafés-concertos, lojas de modas de Paris e casas de rendez-vous de prostitutas importadas, o fino da vida alegre da Europa, com as meninas do tráfico de brancas da França, da Espanha, da Bielo-Rússia e do país das belas judias polacas. “O Rio se civiliza” - era o mote das canções em moda, como num inesquecível tanguinho brasileiro de Ernesto Nazareth, um dos fundadores da música popular brasileira, como Chiquinha Gonzaga, e que fizera seu mestrado nos cabarets de Montmartre. A sociedade aprendia a tomar chá e a tomar vinho, e as pessoas achavam isto um bom sinal de civilização. E era.

Sabem meus amigos que, habitualmente, sou, sem querer, um monstro de indelicadeza: dificilmente respondo cartas e agradeço livros, e isto por pura incompetência: não sou crítico. Leio os livros que recebo - cerca de oito por semana - mas não tenho coragem de resumir os que eles me provocam, em duas ou três linhas amáveis, sinceras ou não. Mas isto é outra história.

O que quero mesmo é falar de minha alegria por seu surpreendente Dicionário Oboé de Vinhos. Li o livro inteiro ontem, de capa a capa, e logo nas primeiras páginas minha primeira exclamação foi esta: o Ceará se civiliza! Aliás, estamos nos civilizando há muito tempo. Guardo, entre minhas velhas memórias familiares, duas cartas amarelecidas, escritas em papel almaço, de meu tataravô José de Barros Melo, o famoso Cascavel, datadas de Crateús, à sua tia dona Úrsula de Barros e Mello Mourão. Numa delas encomenda duas dúzias de litros de Cognac - da cidade de Cognac, na França, esclarece - umas caixas de vinho do Porto e umas garrafas de vinho de laranja de Portugal, e outras de cidra espanhola. Ora, veja! Eu mesmo me lembro, desde pequeno, aos cinco anos, que em todas as festas familiares nas Ipueiras, batizados, casamentos, Natal e Ano Novo, as gentes de alguma posse estouravam em casa as garrafas de cidra espanhola, que vinham de Fortaleza ou do Recife, pelo porto de Camocim, forradas de palha, que os meninos usávamos para enfiar nas pernas, como perneiras de soldados. Guardei um pouco a tradição, e em minha casa, ainda hoje, nas grandes noites de Natal e Ano Novo, se estoura sempre uma garrafa de cidra. Abominavelmente adocicada, ninguém a bebe, mas lançamos sua cascata espumante uns sobre os outros. Como se vê, podíamos não estar ainda no reino dos vinhos, mas estávamos, certamente, no rastro dos vinhos.

E no rastro dos vinhos o Brasil esteve desde os primeiros dias da colonização. O autor do famoso livro “Diálogos das Grandezas do Brasil”, do século XVI - obra descoberta e publicada no “Diário Oficial” por nosso Capistrano de Abreu - como outros cronistas antigos, de Gandavo a Cardim, informam à metrópole portuguesa que, entre as riquezas da colônia, está a fabricação de vinho. “Aqui também se fabrica e se bebe um excelente vinho”. Não se assuste: os honrados cronistas esclarecem: “um excelente vinho de cana”. Afinal, os japoneses ainda hoje chamam de vinho seu ótimo bi-destilado de arroz - o sakê - e os chineses chamam de vinho sua poderosa aguardente de sorgo - o mao-tai - que chega a ter 75 graus de álcool. Os Mellos e sua parentela eram donos de todos os engenhos da Serra Grande e os Mourões eram senhores de todos os engenhos da Serra dos Cocos, formando a tribo turbulenta que se estendia aos baixios da Canabrava, aos sertões dos Inhamuns, com seus primos Feitosas e às várzeas e caatingas do Crateús, com os Correia Lima, os Bezerra Lima, os Bezerra de Mello, até os climas bons do Piauí, onde fundaram a cidade serrana de Pedro II. Em toda parte e até hoje, produzíamos nosso pequeno e pobre vinho artesanal, o vinho de cana dos cronistas coloniais, que hoje oferecem, em outras regiões do Estado e nas mãos de outras famílias, um teor de qualidade e de expressão econômica não alcançado nunca pelos rudes baronetes sertanejos de minha tribo.

Mas viemos, os cearenses todos, do rastro do vinho. Somos da mesma raça de pescadores, lavradores, criadores, tocadores de viola, dos belos piratas morenos que fizeram a história da Grécia. Somos uma espécie de nova Grécia em nossa praia atlântica. Mas a verdade é que fundamos as primeiras cidades onde se podia plantar cana e fazer vinho. Vinho de cana - ai de nós! Aqui tenho um belo livro de oráculos de Apolo. E lá estão, invariavelmente, as respostas dos deuses aos capitães que o vinham consultar em Delfos para saber onde deviam construir uma cidade. A resposta de Apolo era sempre a mesma: “em algum lugar onde haja videiras e azeitonas e pasto para algumas ovelhas”. Os romanos, descendentes de Enéas, fizeram a mesma coisa no Lácio e na Etrúria.

Assim, de “civis”, o habitante da “civitas”, aprendemos que fazer cidade é civilizar. E isto acontecia quando os homens passavam a morar, segundo a lição de Apolo, entre vinhos, azeitonas e leite de ovelha para o queijo egrégio. Foi assim que eu mesmo me civilizei aos poucos - se é que me civilizei - ao partir da Grécia primitiva da Ibiapaba para as Grécias mais antigas e mais sábias, onde a cana evoluíra para a uva e o leite de ovelha se diversificara para as vacas e as cabras - lição também de Apolo, que os próprios gregos custaram a aprender, e que eu mesmo aprendi aqui num belo livro - “Lê Couteau d`Apolon” - onde a gente fica sabendo que as vacas e os touros eram animais sagrados, reservados aos deuses e por aí afora, etc, etc., que a carta está ficando longa.

Tenho alguns livros bonitos, sobretudo franceses, sobre vinhos. Tenho também, algumas (furtadas em restaurantes conspícuos) belas cartas de vinhos bons. Entre elas, a carta de vinhos do famoso restaurante de Miami, “The Forge”, com 560 páginas de vinhos de sua adega. Um amigo meu, filho de um banqueiro da Flórida, me ofereceu ali um jantar pantagruélico. Creio que éramos umas vinte pessoas e ele me incumbiu de escolher o vinho. Cheguei a propor um Chateau Lafite Rotschild - Pauillac, de 1822, data da Independência do Brasil: - 35 mil dólares! Recuei, e o amigo insistiu: peça. Não pedi, e involui para a data de meu nascimento, 1917, ai de mim, creio que não chegava a mil dólares, mas era um Pétrus, um Borgonha inesquecível, não sei se o melhor, mas certamente o mais caro que patinou na língua e no céu da boca de um pobre sertanejo das Ipueiras.

Mas não se iluda: não sou connoisseur propriamente dito. No máximo, distingo um vinho bom dum vinho ruim, e isto me basta. Meu amigo e companheiro de aventuras na Ásia e na Europa Central, me obrigou a fazer com ele um curso de sommelier. É incrível, mas fizemos o curso em Tóquio, no Japão, onde não se produz vinho que preste, mas para onde os japoneses, depois de comprarem algumas das melhores vinhas e adegas da França, trouxeram uns franceses entendidos para ensinar a gente a tomar vinho. O curso era no Club dos Correspondentes estrangeiros. Um de nossos colegas ali, não me lembro se Ted Hughes, do Time, ou se Ian Fleming, do Observer, disse um dia: “Estes japoneses sabem ou aprendem tudo. Quando se resolveram a faze whisky, acabaram fazendo um whisky melhor que o da Escócia”. Mas os vinhos deles são ainda abomináveis. Em todo caso, devo-lhes um pouco de educação do paladar.

Residências temporárias, algumas longas, outras mais breves, em países de vinhos, fizeram de mim um dependente para sempre de um copo e meio ou dois no almoço e no jantar. A comodidade do preço e do hábito me fizeram ancorar hoje na rotina dos vinhos chilenos, às vezes traídos por alguns franceses, italianos, portugueses ou espanhóis, quem sabe uns brancos alemães e por aí.

Enfim, estamos nos civilizando, como queria Apolo, que civilizou os gregos com o vinho e o conhecimento do vinho. Em um dos sonetos do poeta português Antônio Correa de Oliveira, em livro hoje raro, “Alegre Vinho”, editado no princípio do século pela Vinícola Adriano Ramos Pinto, há um terceto que diz:

O vinho, enfim! Enfim o Alento e a Graça: /Alma do Sol a transbordar na taça / De Hércules moço ou nosso avô Platão!

Para concluir: como Voltgaire que sempre escrevia cartas muito longas e muito chatas e no final pedia desculpas por não ter sabido ser breve, digo-lhe a mesma coisa.