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ARTIGOS



GRAVURAS

"Uma das mais populares formas de colecionar arte nos últimos anos é a gravura em edição limitada. O artista supervisiona o processo de reprodução e assina cada cópia. A arte da gravura floresceu na Renascença", ensina Carol Strickland, autora de "Arte comentada" Ela explica: "Faz-se uma gravura criando-se um desenho numa superfície dura feito madeira, metal ou pedra, que então leva tinta e contra a qual se pressiona o papel para se transferir a imagem."

Na idade mecânica, o artista retorna à idade da mão e com o seu talento e a habilidade de suas mãos corta a madeira, martela o metal e talha o bloco de pedra, enriquecendo a presença do homem no mundo.

A gravura tornou-se referência de originalidade na arte brasileira, mas a crítica desatenciosa e especialmente o mercado menos esclarecido relegaram a sua importância a planos inferiores, observa Miguel de Almeida.

A gravura - de veste popular, de calçada ou de fundo de quintal de fato - se encontra tão ou mais arraigada na história brasileira quanto a pintura - sempre navegando em ambientes sofisticados e sempre exigindo professores estrangeiros ou estágios noutras praças d'além mar, complementa Miguel de Almeida.

A gravura, de execução um tanto barata, pôde contar com artesãos competentes e tornou-se opção artística popular. Nordeste afora, as feiras comercializam livrinhos de cordel realizados em xilo. Panfletos, jornais, pequenos livros sempre se escoraram nas variantes da gravura como suporte. A gravura desenvolveu uma linguagem original, aclimatada às feições brasileiras, diz Miguel de Almeida.

Mesmo contando com mestres no passado {Oswaldo Goeldi (1895 - 1961), Lívio Abramo (1903 - 1992) e Cícero Dias (1907 - 2002)} e no presente {(Maria Bonomi (1935), Marcelo Grassmann (1925) e Renina Katz (1925)}, a gravura trilha uma história à parte na arte brasileira, conclui Miguel de Almeida. Primeiro porque o suporte papel jamais gozou de prestígio de primeiro plano nas galerias, seja por ser material acessível (barato mesmo), seja pelos cuidados de conservação e manutenção. Segundo porque a elite brasileira prefere mais a produção baseada em sotaques estrangeiros em relação à produção com sotaques nacionais, nascida de sua própria gente, de identidade local. Essa elite cultua um "Billy the kid" a um Lampião, ressalta Miguel de Almeida, porém esclarecendo: não se trata de sugerir a campanha do major Quaresma, de Lima Barreto, de empreender a substituição do internacional pelo nacional.

A gravura é um campo privilegiado de investigação artística, mas pouco valorizado no mercado de arte, concorda Ricardo Ribenboim . No Brasil, o papel não é um dos suportes favoritos dos colecionadores.

Na Antiguidade clássica, a escultura ocupava lugar de honra como expressão por excelência do humanismo, diz Olívio Tavares de Araújo, crítico de arte, autor de "O olhar amoroso" (São Paulo: Momesso Edições de Arte). O desenho e a gravura ficaram semi-relegados como disciplinas propedêuticas ou ancilares. Explica Araújo: "O desenho serviria, sobretudo, para que o pintor e o escultor desenvolvam seus projetos, antes de transferi-los para o material definitivo. E a gravura seria um recurso para multiplicar imagens e barateá-las, no âmbito do mercado, sem as ambições e a 'profundidade' das artes 'maiores'."

A Semana da Arte Moderna, de 1922, não apresentou gravuras . Mas são gravadores modernos: Carlos Oswald (1882- 1971), Anita Malfatti (1889 - 1964) e Lasar Segall (1891 - 1957).

Em 1940, Raimundo Cela (1890 - 1954) assumiu a cadeira de gravura da Escola Nacional de Belas Artes. Ele foi o primeiro titular da cadeira, escolhido pelo voto de aprovação dos professores. Para Quirino Campofiorito (1902 - 1993), crítico e historiador de arte, Cela, bom gravador, grande aquarelista, pintor da vida humana, teve um papel muito significativo no nascimento da gravura e em seu ensino.

O desenho não passava de simples anotação para telas. Não tinha integridade como tal. A gravura também era uma atividade diletante feita nas horas de lazer para presentear amigos, observa Aldemir Martins (1922). Ele compara: Picasso e Chagall recebiam das gráficas as matrizes, e eu recebo as pedras. Antes de trabalhar com elas, eu as namoro. O material acaba seduzindo o artista. É bonito ver o veio da madeira, trabalhar com ela, modificá-la. No metal, deve-se começar até mesmo serrando a placa.

Para Sérvulo Esmeraldo (1929), a xilogravura é o meio mais simples da gravura. Mas é uma simplicidade com muita disciplina e economia. A gravura é sempre surpreendente: você escreve e lê o contrário. A xilogravura, um concentrado de pensamento, dificilmente permite correções.

O Ceará tem hoje um grupo de gravuristas com bom destaque dentro e fora do País, diz Sebastião de Paula, um dos integrantes desse grupo ao lado de Eduardo Elóy e Vando Figueiredo

A constituição do "nacional estrangeiro", envolvendo a dialética do local e do universal, representa a possibilidade de pensar a cultura brasileira. O "nacional estrangeiro" não foi uma novidade modernista, pois já se encontrava estruturado. Na literatura, estava articulado no romantismo de Gonçalves Dias ou de José de Alencar, dentre outros. A vida intelectual e artística brasileira dificilmente pode ser compreendida sem a figura do estrangeiro, a partir da Missão Francesa de 1816 e os relatos dos viajantes oitocentistas. A Semana de Arte Moderna, de 1922, não deve ser vista como evento singular e isolado. Essa iniciativa deve ser focada numa perspectiva de continuidade com os usos e os costumes do mercado de arte em funcionamento na cidade de São Paulo, pondera Sergio Miceli, autor de "Nacional estrangeiro".