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ARTIGOS



VINHO & CRÍTICA

O vinho é a bebida perfeita. Complementa a comida perfeitamente, afirma Robert Parker, americano, o maior crítico de vinho do mundo, com extraordinária capacidade de distinguir aromas e sabores e de recordar-se deles.

A tradição na produção de vinhos é muito importante. O fato de a França e a Itália produzirem vinhos há séculos é levado em conta. Mas as pessoas mais jovens, iniciantes na bebida do vinho, não dão muita importância à tradição, observa Parker, editor da "newsletter" "The wine advocate", inventor um sistema de pontuação de vinhos de até cem pontos, respeitado no mundo inteiro.

Abriu-se uma grande oportunidade para a Austrália, Nova Zelândia, Chile e Argentina. Países como esses, produtores de vinhos bons com preço justo, podem aumentar suas vendas, principalmente para o mercado dos EUA, porque os americanos não dão muita bola para a origem do vinho, esclarece Parker. Os franceses estão preocupados com os vinhos da Austrália e da América do Sul. Eles sabem ser possível fazer vinhos bons e baratos (abaixo de 15 dólares).

A geografia também é importante na produção de vinhos: a qualidade do solo e o clima são essenciais. A maior parte dos vinhos de qualidade origina-se de regiões com clima temperado. É impossível fazer bons vinhos em regiões muito geladas ou quentes.

O preço nem sempre é uma indicação de qualidade. Alguns dos vinhos mais caros são, realmente, excelentes. Outros, porém, são uma frustração. O público americano procura um bom vinho por menos de 20 dólares. Não deve-se gastar mais de 100 dólares para tomar alguns dos melhores vinhos do mundo, alerta Parker. "Quem gasta mais está interessado em comprar prestígio ou raridade", complementa ele. Las Rocas, um produtor espanhol, faz vinhos maravilhosos com a uva "grenache" a um custo entre 10 e 15 dólares a garrafa.

Às vezes, o valor é alto porque o vinho é raro ou origina-se de região famosa. "Brunello di Montalcino, na Itália, é um bom exemplo disso. Está cheia de vinhos frustrantes e caros. Na Borgonha, acontece a mesma coisa." Há vinhos maravilhosos nesses lugares, mas o consumidor precisa conhecer o produto ou o produtor. O conhecimento de vinho é resultado de degustações, leitura de críticas e contato com vinhos de diferentes lugares.

Parker defende as produções pequenas, menos industriais. Quando o viticultor diminui a produção, colhe um fruto com mais cor e açúcar. Quando a lógica corporativa prevalece, o vinho não tem individualidade nem alma. Computadores não podem decidir a hora certa de cada processo. Mas existem grandes produtores fazendo grandes vinhos. O Penfolds, da Austrália, e a Casa Lapostolle, do Chile, são apenas dois exemplos. Com as uvas "cabernet sauvignon"", "merlot" e "chardonnay" é possível ter produções maiores. Mas com as "pinot noir" não há jeito.

Várias regiões do mundo melhoraram seus vinhos nos últimos anos. Mas, diz Parker, sou "totalmente contra a homogeneização do mercado. Se todos os vinhos tiverem o mesmo gosto, o setor será destruído." Um "malbec" da Argentina deve continuar diferente de um da França.

Qual vinho o senhor escolheria para tomar se esse fosse seu último desejo ? Responde Parker: "Provavelmente um dos vinhedos do Guigal, um produtor da região do Rhône. Talvez um La Mouline ou um Petrus 1947 ou um Cheval Blanc 1947. Nasci em 1947, um ano de ótima colheita no Pomerol e em Saint-Emilion."

Parker trabalha com vinho há mais de 25 anos e costuma degustar mais de 10.000 vinhos por ano, mas, por não ter sido procurado, jamais colocou uma gota de vinho brasileiro na boca (Veja, São Paulo, n. 1.816, 20.ago.2003).

A Califórnia tem 800 vinícolas, mas menos de 100 produzem vinhos de classe internacional, embora pratiquem preços de vinhos de classe internacional, esquecendo-se dos diversos graus de mediocridade e insipidez de seus produtos, analisa Parker na edição nº 150 da "Wine Advocate", comemorativa dos 25 anos dessa publicação (Lucki, Jorge. "A Califórnia compreendida na era da 'parkerização' ". Valor, São Paulo, 03.fev.2004, p. D4).

Os vinhos californianos têm vários problemas: "preços absurdamente altos, pobreza e diluição, uso excessivo de carvalho, falta de equilíbrio devido a excesso de acidez ou de álcool, exacerbado pela ausência de frutas e corpo, e, o pior pecado de todos, são assustadoramente enfadonhos".

Os vinhos californianos, continua Parker, "não devem estar ligados à delicadeza e refinamento, como os de Bordeaux, mas à potência, exuberância e gloriosa fruta madura". Essas características justificam a alta graduação alcoólica dos vinhos californianos. Nenhum consumidor deve ater-se à quantidade de álcool, se tudo estiver combinado de forma equilibrada.

A uva "zinfandel", tipicamente americana, pode originar vinhos deliciosos e intensos, se o rendimento das parreiras for baixo e as vinhas forem velhas, mas não é uma variedade nobre e nem pode pretender ser. Na Califórnia, há poucos casos de sucesso também com a "sangiovese" e a "merlot".

O vinho é bom quando é bom, é diluído quando é diluído. Não importa a falta de história do Novo Mundo. Os grandes vinhos são produzidos em quantidades limitadas, as quais demandam muito tempo, trabalho intenso e são dispendiosos para produzir, administrar e engarrafar.

Parker revela predileção por vinhos intensos e robustos. Para ele a degustação é subjetiva e sua opinião não é absoluta. As reações de seu paladar podem não ser automaticamente as de todo mundo.

"MONDOVINO"

As grandes corporações "pasteurizam" o gosto do vinho para torná-lo "fácil" e globalizado, adverte Jonathan Nossiter, diretor do documentário "Mondovino", exibido no Festival de Cannes de 2004 (Folha de S. Paulo, São Paulo, 15.mai.2004, p. E7). O documentário relata bastidores, fofocas e intrigas da indústria do vinho. Só na Califórnia a indústria do vinho gira cerca de US$ 33 bilhões por ano, o mesmo valor de Hollywood.

Segundo Nossiter, a indústria do vinho abrange dois grupos: 1) os pequenos produtores ou "terroiristas", valorizadores do "terroir" (a qualidade e as características do solo); 2) as grandes corporações, preocupadas com o "marketing"; elas fazem tudo ou quase tudo para alcançar uma boa colocação no mercado. No primeiro grupo, Nossiter destaca Hubert de Montille, proprietário de vinícola artesanal na Borgonha. No segundo grupo, Nossiter indica nomes como o Château Mouton-Rothschild, apontado pelos puristas como o McDonald´s da classificação "Premier Grand Cru", bem como a "santíssima trindade" do vale do Napa californiano, formada pelos Mondavi, os Harlan e os Staglin.

Michel Rolland é o mais requisitado e bem pago especialista em vinhos do mundo, diz Nossiter. A amizade de Rolland com Robert Parker tem utilidade comercial, conforme insinua o diretor do documentário. O crítico avalia negativamente um vinho, o especialista oferece seus serviços ao vinhedo em desespero e o crítico, depois, reavalia positivamente o produto mudado pelo especialista e amigo.

O Brasil figura no documentário quando o diretor fala da produção do vale do São Francisco, Pernambuco, único lugar do mundo com possibilidade de dar duas safras por ano, em virtude da proximidade com o Equador e a falta de umidade.