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ARTIGOS



NEUROFINANÇAS

As pessoas fazem suas escolhas econômicas com base no conjunto de informações disponíveis, num dado momento, e aprendem com seus erros, de acordo com Robert Lucas, professor de Economia da Universidade de Chicago, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1995 pela teoria econômica das expectativas racionais. Na hora de investir, sempre prevalece a lógica.

Na prática, no entanto, investidores cometem erros o tempo todo, avalia Brian Knutson, professor de Neurociência e Psicologia da Universidade de Stanford e pesquisador do comportamento dos investidores. Alguns desperdiçam fortunas em investimentos, dobrando apostas em momentos nos quais a lógica ditaria o abandono da parada ou, então, mantendo o dinheiro aplicado na esperança de obter mais lucros em momentos nos quais uma pessoa com comportamento racional realizaria seus lucros. O mapeamento do cérebro (96 mil km de circuitos neurológicos) pode permitir a compreensão do comportamento dos investimentos.

Esse novo campo de estudo, chamado de ‘neurofinanças’, pode representar a próxima grande fronteira para ‘Wall Street’, diz Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2002 por seu trabalho pioneiro, combinando teoria econômica clássica e estudos de psicologia humana, quanto ao aspecto comportamental do mundo financeiro.

Há mais de um século, as pessoas tentam explicar o funcionamento dos mercados financeiros. Eles se comportam de maneira essencialmente aleatória, concluiu em 1900 Louis Bachelier, francês, matemático.

John Maynard Keynes, em sua obra ‘Teoria geral do emprego, juros e moeda’, de 1936, comparou os mercados de ações a concursos de beleza promovidos por jornais da época. Os leitores eram convidados a selecionar a mais bonita. A chave para selecionar a vencedora não era escolher o rosto mais bonito, mas antecipar o rosto a ser escolhido pela maioria das pessoas (Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 fev. 2006, p. B1).

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O comportamento criminoso é balizado pelos riscos e os custos das punições de acordo com a teoria racional do crime apresentada por Gary Becker, Prêmio Nobel de Economia de 1992, também formulador do conceito de ´capital humano´, segundo o qual as pessoas investem em sua própria educação como poderiam investir em ações, ou seja, atentas à taxa de retorno, com base na relação de custos e benefícios como princípio norteador. As pessoas fazem escolhas racionais sobre crime, casamento, paternidade, educação e até mesmo vício em drogas. A perspectiva econômica de análise de comportamento é aplicável de forma ampla. A maioria das pessoas ainda não se deu conta do alcance da economia, não adstrita ao estudo do dinheiro (Valor, São Paulo, 23 jun. 2006, suplemento ´Eu & fim de semana´, p. 20).

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A tomada de boas decisões de investimento depende do equilíbrio certo entre o medo e a ambição. Os piores erros acontecem quando um ou outro predomina (Valor, São Paulo, 18 jan. 2007, p. D2).

´Nós simplesmente tentamos ser temerosos quando os outros são ambiciosos, e ambiciosos quando os outros têm medo´, afirma Warren Buffett, megainventidor (id.).

Nos investimentos, o auto-controle e o equilíbrio emocional preponderam sobre a inteligência ortodoxa (id.).

Uma pessoa precisa de um QI de apenas 25 para ser um investidor bem-sucedido, explica Buffett. Além desse nível, a pessoa precisa de temperamento para controlar os impulsos, causadores de problemas para outras pessoas (id.).

Existem sete formas diferentes de avaliação da inteligência, conforme sugeriu Howard Gardner, psicólogo, em 1983: 1) matemática-lógica; 2) lingüística-verbal; 3) mecânica-espacial; 4) musical; 5) corporal; 6) interpessoal; e 7) intrapessoal (auto-conhecimento). Se Buffett estiver certo, o auto-conhecimento pode ser mais importante em relação à inteligência lógica (id.).

As neurofinanças aplicam os critérios da neurociência aos investimentos, enquanto as finanças comportamentais, outra disciplina, usam os resultados da psicologia experimental para prever os erros sistemáticos a serem cometidos pelos investidores (id.).

As neurofinanças tentam entrar no cérebro para compreender como as decisões são tomadas, em vez de, à maneira dos cientistas comportamentais, tirar conclusões a partir do comportamento observado, explica Richard Peterson. As condições externas, segundo ele, afetam os investimentos. A disposição de assumir riscos, uma dimensão crítica do investimento, é biologicamente determinada, e ela pode mudar com os níveis hormonais, com a idade, medicamentos ou mesmo a dieta. Os controles biológicos por trás das decisões financeiras inconscientes explicam a razão pela qual os indivíduos, e até mesmo os governos, têm tanta dificuldade em investidor no longo prazo. Não fomos biologicamente projetados para imaginar 30 anos no futuro, conclui Peterson (id.).

A neurociência pesquisa o cérebro para encontrar as bases do medo e da ambição. Quando o medo domina a razão, há a aversão excessiva ao risco. As neurofinanças tentam dar ao indivíduo uma vantagem ao encontrar ferramentas para o auto-conhecimento e a auto-disciplina, assinala John Authers, do ´Financial Times´ (id.).

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A neuroeconomia, aproximação dos estudos da economia com os da psicologia e neurociência, utiliza recursos como o mapeamento cerebral para entender o comportamento humano. Quando as pessoas estão numa situação positiva em relação ao dinheiro, elas tendem a pensar nos benefícios dos retornos e apreciam o sentimento de risco. Mas quando pensam sobre custos e as perdas dos investimentos, recorrem a módulos cerebrais diferentes e se tornam ansiosas, concluiu pesquisa realizada na Universidade de Stanford, EUA. O ser humano não é completamente racional ao tomar decisões, observa Peter I. Bosserts, economista do Instituto de Tecnologia da Califórnia. O cérebro acessa risco e retornos de forma separada, ou seja, não faz um único cálculo, como supõem os modelos econômicos, de acordo com as pesquisas de Bosserts. A utilização de recursos da neurociência pode trazer elementos para a economia entender fenômenos considerados irracionais e melhorar a capacidade de previsão dos modelos em uso, explica Roberta Muramatsu, professora do Ibmec São Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A neurociência permite relacionar as escolhas com as áreas do cérebro com atuação sobre elas e pode ajudar a encontrar alternativas para a criação de modelos econômicos capazes de prever diferentes comportamentos, segundo Armando Freitas da Rocha, professor de neurociências da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). O propósito da neuroeconomia é relacionar modelos econômicos a um substrato neural para explicar a tomada de decisões. A neuroeconomia (continua Rocha) trabalha com o conceito de ação motivada, pelo qual o indivíduo toma decisões a partir de elementos a incentivar a sua escolha. As empresas podem utilizar os conhecimentos da neuroeconomia para ações de ´neuromarketing´ (segmento no qual entendem melhor as reações de seus clientes a seus produtos) e, até mesmo, motivar o consumo por meio do desenvolvimento de produtos mais adequados, sem isso significar manipulação de escolhas, conclui Rocha. A possibilidade de prever com maior precisão o comportamento da população para a definição de políticas macroeconômicas é uma das principais vantagens da neuroeconomia, opina Paulo Sandroni, da FGV-SP. Há cinco anos, Daniel Kahneman, psicólogo, recebeu o Prêmio Nobel de Economia ao questionar a racionalidade dos agentes no processo de tomada de decisão, lembra Ediane Tiago (´Centro nervoso da economia´. Valor, São Paulo, 09 mar. 2007, suplemento ´Eu & fim de semana´, p. 4).