Digite a palavra-chave

A busca é efetuada em todas as páginas do site e abrange todo o seu conteúdo.
Página principal




ARTIGOS



POBREZA E CRESCIMENTO

Os países da América Latina precisam combater a pobreza de modo mais agressivo, se quiserem promover um maior crescimento e competir com a China e outras economias asiáticas dinâmicas. Só com uma política ativa de redução da desigualdade será possível atingir taxas de crescimento mais altas, conclui o estudo ‘Redução da pobreza e crescimento: círculos virtuoso e vicioso’, divulgado em 14 fev. 2006 pelo Banco Mundial (Valor, São Paulo, 15 fev. 2006, p. A13).

As taxas de crescimento ‘per capita’ anuais da China se mantiveram próximas de 8,5% entre 1981 e 2000 e reduziram a pobreza em 42 pontos percentuais. Na América Latina, o PIB caiu 0,7% durante os anos 1980 e aumentou cerca de 1,5% ao ano na década de 1990, sem apresentar mudanças significativas nos níveis de pobreza.

Os pobres, geralmente sem acesso a crédito e a seguros, não estão aptos a participar de muitas das atividades geradoras de renda, estimuladoras do investimento e do crescimento. Em conseqüência, cria-se um círculo vicioso: 1) o baixo crescimento determina o aumento da pobreza; 2) o aumento da pobreza resulta num menor crescimento. Uma elevação de 10% nos níveis de pobreza poderá reduzir a taxa de crescimento em 1% e a taxa de investimento em até 8% do PIB. Uma queda de 10% nos níveis de pobreza poderá gerar um aumento de 1% no crescimento do PIB.

Para transformar o círculo vicioso em virtuoso, precisamos iniciar um amplo ataque à pobreza, de modo a viabilizar um maior crescimento e, ao mesmo tempo, uma redução da pobreza, assinala Guillermo Perry, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. O combate à pobreza não é bom somente para os pobres, mas também é um bom negócio para toda a sociedade, complementa Perry.

Uma estratégia de redução da pobreza voltada para o crescimento deveria ter como objetivo a melhoria da qualidade da educação, a expansão da cobertura do ensino médio e universitário e o estímulo do investimento em infra-estrutura, a fim de beneficiar as regiões menos desenvolvidas e ampliar o acesso dos pobres aos serviços públicos.

Essa estratégia deveria ainda ampliar o acesso ao crédito e aos serviços financeiros, manter a estabilidade macroeconômica e implementar políticas sociais eficazes, como os programas de transferência condicional de renda, fornecedores de dinheiro para as famílias pobres, uma vez mantenham seus filhos na escola e os levem ao médico. São exemplos desses programas: ‘Bolsa-Família’ no Brasil, ‘Oportunidades’ no México e ‘Familias em acción’ na Colômbia.

O principal desafio enfrentado pelos países da América Latina é transformar o Estado num agente promotor da igualdade de oportunidades e, também, num agente redistribuidor eficiente da renda.

Os programas de gastos públicos devem ser dirigidos às pessoas realmente necessitadas de recursos, ao invés de serem direcionados para os mais abastados, como no consumo de energia, aposentadorias, pensões e universidades públicas.

No caso brasileiro, o primeiro passo é atacar as despesas públicas com efeitos regressivos, ou seja, ampliadoras das desigualdades, como as altas aposentadorias para setores da sociedade com alto nível de renda e o subsídio a universidades públicas, utilizadas por estudantes de classes altas.

A questão da educação é fundamental para a criação de uma força de trabalho qualificada, propiciadora de maiores retornos para os investimentos produtivos nas empresas. Nos EUA, a correlação média entre a escolaridade dos pais e dos filhos é de 0,5. No Brasil, essa correlação chega a   0,8 (ou seja, 80% dos filhos têm escolaridade semelhante à de seus pais). A educação assegura mais mobilidade social.

Algumas políticas podem representar mais chances de crescimento de longo prazo, mas eventualmente podem provocar o aumento de desigualdade no curto prazo, como a abertura comercial. O governo deve então adotar as políticas de crescimento de longo prazo, mas deve oferecer à população pobre condições de beneficiar-se dessas políticas, principalmente por meio da educação e do acesso à infra-estrutura. No caso de abertura comercial, o governo deve garantir compensações para os pequenos negócios, sempre afetados pela concorrência global.

O acesso ao crédito, ou seja, a maior disponibilidade de crédito, facilita o surgimento de novos empreendedores.

No Brasil, os mais pobres têm uma média de apenas 3,4 anos de escolaridade. Mais chocante para mim, entretanto, é 20% dos mais ricos terem apenas 10,3 de escolaridade. Uma elite com tão pouca instrução não será capaz de operar uma sociedade complexa, avalia Norman Gall, americano, jornalista. O Brasil emprega os recursos disponíveis de forma errada. Gasta com um aluno do curso primário 1/5 em relação à Grã-Bretanha, mas gasta com um aluno universitário duas vezes mais (Veja, São Paulo, n. 1941, 01 fev. 2006, p. 11).