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ARTIGOS



LICEU DO CEARÁ

No meu primeiro dia de aula no Liceu do Ceará, a primeira pessoa por mim reconhecida foi Waldemar, de família piauiense amiga de minha mãe, vendedor de placas luminosas. Homem de mais de 30 anos, Waldemar estava elegante, bem vestido, passeio completo. Eu perguntei: Você é professor de qual matéria ? Waldemar respondeu: Não sou professor. Vim recomeçar meus estudos.

Nunca me esqueci dessa surpresa, mas logo me familiarizei com o ambiente do curso noturno do Colégio Estadual Liceu do Ceará, onde ingressei para cursar a 3ª série ginasial (atual 6ª série da educação fundamental) e permaneci até o final do 2º ano do científico (atual ensino médio).

Mudei da água para o vinho. O motivo foi o início em 15 mar. 1966 do Curso de Aprendizagem Bancária (CAB). De manhã, aulas na Divisão de Treinamento do Banco do Nordeste. De tarde, estágio no BEC. Antes, estudava no curso da manhã do Colégio Marista Cearense, só freqüentado por jovens estudantes profissionais e de melhores condições sociais.

A 3ª série ginasial do curso noturno do Liceu do Ceará era freqüentado, em sua grande maioria, por homens, muitos já casados, geralmente empregados no comércio, como Messias, casado, simpático vendedor da Sapataria Primavera. Lucinho, o aluno mais famoso, era o principal atacante do Fortaleza. Gostava de prosar com a professora Filomena, competente e dedicada mestra de Português, sempre a ensinar os alunos em todas as ocasiões. Uma vez subindo a escada, ela corrigiu-me (e nunca mais me esqueci): Newton, um cavaleiro sempre dá a mão do corrimão da escada para a mulher. Waldezilton, inteligente vendedor das baterias Moura, e eu éramos os alunos mais novos da classe.

O curso ginasial era ministrado no Anexo Juvenal Galeno (ao lado do Corpo de Bombeiros) e o curso científico, na sede do Liceu do Ceará, com frente (Norte) para a praça Gustavo Barroso, mais conhecida como praça do Liceu, no bairro Jacarecanga. Passar a freqüentar o majestoso prédio-sede do Liceu do Ceará era um sonho para todos os ginasianos. Fundado em 1845, há 160 anos, terceira escola mais antiga do Brasil, o nosso tradicional Liceu do Ceará funciona no referido prédio a partir de 1935. Hoje oferece o ensino médio a aproximadamente 4 mil alunos.

São inesquecíveis as lembranças do nosso querido Liceu do Ceará. Bons professores, bons colegas. O governo do Estado, nessa época, atrasava em meses o pagamento dos professores, mas, mesmo assim, sem greve, eles vinham e ministravam boas aulas, mesmo os professores de mais elevada projeção, como o dr. Ferreirinha, professor de OSPB, então juiz de Direito, posteriormente desembargador.

Após 4 anos, depois de concluir o 2º ano científico, transferi-me em 1970 do Liceu do Ceará para o Colégio Batista, a fim de cumprir o último ano do ensino médio conjuntamente com o curso de preparação para o vestibular da UFC.

Quase 40 anos depois, lembrei-me muito de Waldemar, piauiense, vendedor de placas luminosas, um grande colega. Ingressei no curso de Direito da Faculdade Farias Brito e, no início, muitas pessoas me abordavam: o sr. agora é professor da Faculdade ?

“Não digais, quando eu tiver um tempo livre, vou estudar; talvez, jamais tereis um tempo livre”, ensinou Hillel, citado por Harold Bloom em sua mais nova obra, “Onde encontrar a sabedoria?” (Rio de Janeiro: Objetiva, 2005, p. 18).