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ARTIGOS



EDUCAÇÃO FINANCEIRA INFANTIL

A coisa mais importante para as crianças são seus pais. Pessoas muito ocupadas, dedicadas o tempo todo ao trabalho, voltam para casa e absorvem-se no telefone ou no computador. Elas podem sentir-se culpadas por não estarem envolvidas com os filhos e começam a gastar dinheiro para diminuir essa culpa. Nos EUA, há uma indústria lucrando com a ansiedade dos pais, observa Joshua Sparrow, pediatra, professor da Universidade Harvard (Folha de S. Paulo, São Paulo, 22 nov. 2004, p. A14).

A principal motivação para uma criança aprender é o prazer sentido em estar perto de outras pessoas. O desenvolvimento cognitivo não pode ser separado do desenvolvimento emocional. Se o pai exercer pressão pela parte cognitiva, a criança acabará desistindo de dar-lhe atenção nos momentos de ensinamento. Nos primeiros quatro ou cinco anos de idade, as crianças aprendem muitos dos valores morais ensinados. Elas começam a respeitar os outros e a ter consciência dos sentimentos e das necessidades das outras pessoas. Nos primeiros anos, a criança deve aprender a ter autoconfiança suficiente e a ter coragem de encarar o desafio. A melhor maneira de aprender é correndo o risco de errar. A vida das crianças não pode ser só de alegrias. Elas têm de experimentar o esforço ou o trabalho mediante recompensa (nem sempre imediata), pois senão poderão sofrer desapontamentos pelo resto de suas vidas, diz Sparrow (id.).

As bases para o aprendizado e para a pessoa sentir-se feliz com ela mesma são fundamentais nos primeiros anos de vida, avalia Thomas Barry Brazelton, pediatra, professor da Universidade Harvard. Os pais querem sempre dar o melhor para seus filhos. Pais de classe média podem viver uma situação de estresse quando ambos trabalham fora e têm, por exemplo, a mídia competindo pelas mentes e corações de seus filhos. Os pais mais pobres enfrentam, também, outros estresses devido à sua condição de pobreza, como a preocupação com comida, dinheiro ou moradia (id.).

Educação financeira

As bases da educação financeira são transmitidas por meio de atitudes simples, na rotina do relacionamento entre pais e filhos. Atitudes cotidianas ajudam a criança a preparar-se para postergar desejos e suportar a espera em nome de benefícios futuros. Isso é essencial para relacionar-se bem com o dinheiro, diz Cássia D´Aquino, educadora financeira. As atitudes dos pais são o parâmetro mais valioso. A criança notará a incoerência se a mãe negar um tênis novo, mas tiver 300 pares no armário. Ou se o pai fizer um discurso anticonsumista, mas trocar o aparelho de som toda vez ao surgir um novo modelo. Os passeios da família não devem resumir-se ao “shopping”, a fim de o prazer não ser associado a compras, lembra Raquel Caruso Whitaker, psicopedagoga. Gastos equilibrados e opiniões coerentes são fundamentais para ensinar uma atitude tranqüila em relação ao dinheiro, diz Whitaker. Encher a criança de brinquedos não é uma boa estratégia. Ela deve aprender a oportunidade de ocasiões e datas para ganhá-los. Deve perceber não ser possível satisfazer todos os desejos.

Lidar com o dinheiro é exercitar escolhas. Ao optar por uma compra, deixa-se de empregar o recurso em outra. Como treino, a criança deve ser estimulada a participar das decisões de escolha. A participação da criança no supermercado é uma fonte de aprendizado, a começar pela observância da lista de compras, introdutora da noção de planejamento. Os pais devem obedecer ao contido na lista e, também, mencionar se algo está caro ou barato, sinalizando racionalidade nas escolhas.

O momento certo de começar a mesada, segundo Cássia D´Aquino, é a partir dos 3 anos, quando a criança já entende a possibilidade de gastar, poupar ou ambas as coisas. Deve ser estimulada a idéia de fazer uma micropoupança em um cofrinho para juntar até ter o suficiente para pequenos desejos de consumo (associar a poupança a um objetivo). Dos 6 aos 10 anos, a semanada adquire um papel mais didático e pode cobrir parte dos gastos da criança, como o lanche da escola. O valor deve ser dado semanalmente para a facilitar a administração. A partir dos 11 anos, o dinheiro já pode ser mensal.

O objetivo da mesada é aprender fazer planejamento financeiro. Deve ter um dia fixo para o pagamento. A mesada não deve ser suspensa como punição para algum comportamento inadequado. Há outras formas de punir, como cortar o tempo na frente do “videogame”. A autonomia conferida pela mesada não significa carta branca para qualquer tipo de gasto. Devem ser estabelecidas algumas regras, principalmente quando seus filhos forem mais crescidos, de acordo com a idéia de adequado, como não usar o dinheiro para comprar cigarros ou revistas pornográficas. Erros fazem parte do aprendizado. Se a criança gastar logo o dinheiro, não deve ser privada do lanche, mas deve ser evitada a verba extra. Ela terá de levar um sanduíche de casa (Cláudia, São Paulo, out.2004, p. 200).

A falta de conhecimentos básicos é importante para um bom planejamento dos gastos ou para evitar a decisão errada de investir ou de tomar um empréstimo, alerta Cássia D’Aquino (Valor, São Paulo, 05 jan. 2005, p. D1). Lidar com o dinheiro é fazer escolhas e saber as consequências dessas decisões. Adiar uma satisfação do desejo exige uma perspectiva de longo prazo e muito treino. Quanto mais cedo se aprende a lidar com o dinheiro, melhor. O descontrole de gastos é o motivo alegado por 12% das pessoas incluídas na “lista negra” do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), conforme pesquisa de nov. 2004. O principal motivo (50%) ainda é o desemprego do titular da dívida. O desemprego por pessoa da família responde por 10% das causas da inadimplência.

Clientes mirins

As crianças passaram a gastar mais tempo com as compras e reduziram o tempo de atividades como brincar, ver televisão e conversar com os pais. O tempo dedicado pelas crianças às compras era de 1 hora e 52 minutos, em 1981, e elevou-se para 2 horas e 53 minutos, em 1997, de acordo com quadro exposto por Juliet Schor, americana, socióloga, especialista em tendência de consumo, autora do recém-lançado livro “Born to buy” (“Nascido para comprar”). Nunca se vendeu tanto para crianças de 4 a 12 anos, e elas passaram a ditar regras e a influenciar diretamente suas compras e até as da família. Transformaram-se num dos elos mais importantes estabelecidos entre o mercado e os lares: 40% das crianças urbanas identificam-se com marcas de carros e pelo menos 30% dos pais consultam os filhos antes de optar por um novo automóvel. Influenciam adultos na compra de eletrônicos e carros e na escolha de hotéis. Cansados da rotina no trabalho e sem disposição para enfrentar as pressões em casa, os pais muitas vezes cedem a todo e qualquer pedido da garotada. O tempo dispensado pelas crianças para conversa em casa, ou seja, de interação entre pais e filhos, caiu de 53 minutos, em 1981, para 35 minutos, em 1997. Como os pais não dizem “não” para coisa alguma coisa, as consequências tornam-se previsíveis, alerta Juliet Schor. No campo do comportamento, aumentam os casos de violência nas escolas. Os garotos não sabem reconhecer o seu limite individual. Meninos e meninas estão sofrendo disfunções como depressão, ansiedade, baixa auto-estima e problemas psicossomáticos. No campo da saúde, a liberalidade para a compra de doces, salgadinhos e refrigerantes agravou o problema do peso e 25% dos jovens americanos estão acima do peso ou obesos (“Cliente mirins”. Exame, São Paulo, n. 831, 24 nov. 2004, p. 122).

Autonomia

A criança não se relaciona diretamente com as responsabilidades da vida. Ela é protegida pelos pais. A partir da adolescência, os pais, no entanto, precisam diminuir gradualmente a proteção para conduzir o filho na direção da autonomia de seu viver. O alvo da educação é a autonomia, ou seja, a possibilidade de o jovem ser capaz de viver por conta própria uma vez terminada a adolescência. Essa autonomia traduz-se na liberdade de viver e pressupõe a responsabilidade de governar sua própria vida e de arcar com as conseqüências de suas escolhas. Ao chegar aos 17 ou 18 anos o jovem já tem condições de ficar sem a proteção dos pais em tudo.

Alguns pais dão proteção em demasia aos filhos e servem de anteparo para quase todas as vicissitudes e sofrimentos inevitáveis da vida. Assumem e compartilham as responsabilidades com os filhos. A conseqüência é os filhos continuarem dependentes dos pais, mesmo após a adolescência.

Mas não dá para culpar os pais pelos caminhos escolhidos por um adulto. Ao deixar a adolescência, o ser humano torna-se livre para optar e para cuidar-se. Em momentos difíceis, em qualquer idade, os pais podem colaborar com os filhos, porém o apoio deve ser muito mais afetivo, de encorajamento e solidariedade.

Edson Cholbi Nascimento, Edinho, ex-goleiro, 34 anos, filho de Pelé, 64 anos, foi acusado de envolvimento com drogas. Pelé se culpou por não ter-se dedicado mais à educação dos filhos. Uma extensa agenda de compromissos roubou seu tempo de dedicação aos filhos. Mas Edinho deve responder sozinho pelas suas escolhas na vida como todo homem adulto, concluiu Rosely Sayão, psicóloga, autora de “Como educar meu filho?” (Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 jun. 2005, Folha Equilíbrio, p. 12).

Bullying

É qualquer comportamento, mesmo em tom de brincadeira, capaz de intimidar, ofender, agredir ou excluir. Crianças e jovens não refletem sobre a responsabilidade de seus atos, palavras e condutas. Não conseguem ainda colocar-se no lugar do outro. Os adultos precisam fazer a iniciação dos mais novos na vida em grupo e na vida civil. Nas escolas, alunos convivem diariamente com o “bullying” e não sabem como reagir. Muitos pais, conscientes do papel de iniciar os filhos nas relações humanas, preocupam-se em instruir-lhes sobre como agir caso sejam vítimas do “bullying”. Alguns pais não se comprometem com essa iniciação e simplesmente consideram as crianças e os jovens de hoje sem senso de limites. Os adultos se ausentam das relações da crianças e jovens com os outros e os casos de “bullying” vêm ocorrendo com frequência, avalia Rosely Syão, psicóloga, autora de “Como educar meu filho?”, São Paulo: Publifolha (Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 maio 2005, Folha Equilíbrio, p. 12).

O aluno tímido e inseguro é, com mais frequência, vítima de “bullying” na escola (ser zoado ou alvo de brincadeira de mau gosto ou chamado de apelido ofensivo). A platéia dentro da classe ao rir do “bullying” só incentiva a atitude. A internet tornou-se uma grande aliada do “bullying” por meio de “blogs” criados para azucrinar a vida de um colega, de fofocas transmitidas por programas de mensagem e até mesmo do “orkut”, assinala Cleo Fante, autora do livro “Fenômeno ‘bullying’: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz”. Vítimas de “bullying” se deparam com fotografias, tiradas sem autorização, espalhadas pela rede com piadinhas, gozações e até ameaças (Folha de S. Paulo, São Paulo, 20 jun. 2005, Folha Teen, p. 7).

Crianças gastadoras, pais cúmplices

A atual geração de crianças e adolescentes é a mais orientada ao consumo de toda a história dos EUA. Essas crianças e adolescentes querem ser ricas (75%) e famosas (61%). As grifes, segundo elas e eles, definem quem são e dão o seu status social. Crianças podem reconhecer logomarcas aos 18 meses; antes do segundo aniversário, estão pedindo coisas pelo nome das marcas; antes mesmo de iniciar sua vida escolar, 25% delas já têm televisão no quarto, podem lembrar-se de 200 marcas e acumulam uma série sem precedentes de objetos, começando por 70 novos brinquedos por ano. As crianças de 10 anos têm em média 300 a 400 marcas e logomarcas na memória. As crianças assistem a 40 mil comerciais na televisão por ano e requisitam 3 mil produtos e serviços por ano. As crianças e os adolescentes são considerados hoje pelos publicitários como o melhor caminho para chegar ao bolso de seus pais. Atualmente, 80% das marcas globais têm uma estratégia específica para crianças e adolescentes, observa Martin Lindstrom, um dos maiores gurus do mundo publicitário. Os filhos influenciam os pais na decisão de compras. Na compra de carros, 67% dos pais solicitam a opinião dos filhos. A exposição excessiva a valores materiais está deixando as crianças mais depressivas, ansiosas e muito acima de seu peso. Está prejudicando o bem-estar das crianças americanas, conclui Juliet B. Schor, autora de “Born to buy” (EUA: Scribner Books) (Valor, São Paulo, 21 jul. 2005, p. D6).

Artes

Na formação dos filhos, os pais devem considerar o papel das artes. A criança e o jovem podem, por meio das artes, aprender de modo criativo o sentido da concentração, da disciplina, do esforço e da organização, além de aguçar a sensibilidade e aprender a valorizar o belo. Podem também entender, de modo mais concreto, o quanto de tenacidade e perseverança é preciso para viver, observa Rosely Sayão (Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 ago. 2005, Folha Equilíbrio, p. 12).