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ARTIGOS



VINHOS FRANCESES

Eliane de Lencquesaing é a dirigente do Château Pichon-Lalande, localizado em Pauillac, região de Bordeaux. Esse Château, desde o século XVII, produz o vinho "Pichon Longueville Lalande", um "grand cru", posicionado como um vinho "deuxième" (segundo) na classificação de 1855. O mercado considera o Pichon um "super segundo" e, como segundo, um "grand cru" de preço mais acessível que um dos "premiers" (primeiros).

A classificação de 1855 abrange 5 classes de vinhos, num total de 61, sendo 5 "premiers crus" (Lafite, Margaux, Latour, Haut-Brion e Mouton-Rothschild); 12 "seconds", 14 "troisièmes", 11 "quatrièmes" e 17 "cinquièmes". O Mouton-Rothschild só foi elevado a "premier" em 1973 (a única alteração). Os 61 vinhos são mencionados como "grandes cultivos" ou "grands crus classés".

Eliane compara o vinhedo com a maternidade. Cada safra, todo o ano, é como cada criança: tem a sua personalidade e precisa de ser tratada com respeito, atenção e cuidado. Na criação do vinho, diz Eliane, o objetivo é produzir uma mistura ("assemblage") harmoniosa e cada safra tem sua personalidade, assegurada pelo balanceamento da mistura das varietais (merlot, cabernet sauvignon, cabernet franc e petit verdot). Busca-se o balanço e a harmonia entre os taninos, o sabor frutado e a acidez com potencial de longevidade para o envelhecimento do grande vinho, esclarece Eliane.

Eliane combina vinho e arte. Explica ela: "O vinho não é um produto industrial. Todos os anos, vinhos são criados das condições climáticas, qualidade das uvas, a decisão de mistura. Esse é um trabalho de arte, como a música, que objetiva harmonia, balanço, complexidade e fineza. A similaridade com a qualidade, necessária para toda a criação artística, é a razão de nossa filosofia ser muito próxima à arte."

Eliane comenta sobre os vinhos industriais e os vinhos com arte: "O conhecimento da produção do vinho cresceu enormemente nestes 30 anos. Melhores equipamentos e tecnologia ajudam a fazer um vinho de mais qualidade, mesmo em anos de dificuldades climáticas. Mas isso não é razão para fazermos vinhos tecnológicos, com mais extrato e robustez e perdendo a elegância e a fineza da tradição. Nós não devemos fazer vinhos sempre similares, seguindo uma receita. Ao contrário, queremos manter a personalidade de cada safra, balanceando a mistura de nossos varietais."

Complementa Eliane sobre os vinhos industriais e os vinhos feitos como uma jóia: "Você pode beber vinho como qualquer outra bebida alcoólica e encontrar garrafas baratas bem-feitas industrialmente. Mas você deve apreciar um vinho complexo, com frescor e fineza, como o Pichon, em momentos raros. Esses vinhos vêm de um 'terroir', combinação de um solo especial, subsolo e clima. São feitos manualmente, exclusivos como uma jóia, e, por isso, mais caros. Para apreciá-los melhor, é preciso já ser iniciado com alguma prática."

Eliane ensina a regra de beber o vinho: "Antes de servir o vinho e conforme sua idade e qualidade, ele deve ser decantado. Servido no copo e temperatura corretos, o vinho deve expressar todo o seu perfume, buquê e complexidade. A última regra é dividir uma boa garrafa com os amigos." Conclui Eliane: "Beber vinho sempre dá prazer e une as pessoas."

Edouard Moueix, um dos herdeiros do Château Pétrus, localizado no Pomerol, Bordeaux, um dos vinhos mais caros do mundo, observa sobre os tipos de vinhos: "Identificamos que o consumidor procura dois tipos de vinhos: os fortes e encorpados ou os elegantes e complexos. Por causa dessa estratégia de produção e do 'terroir' de nossos vinhedos, o Pétrus consegue apresentar todas essas características."

O vinho mais encorpado resulta de maior concentração do mosto e há técnicas sofisticadas para obter essa concentração. O vinho é o produto da fermentação do mosto (suco da uva). O motivo pelo qual se misturam castas (ou varietais) é obter equilíbrio e complexidade.

Moueix dá também a sua regra de beber o vinho: "A regra é desfrutá-lo sempre acompanhado de bons amigos e boa comida." Acrescenta ele: "O vinho é um produto maravilhoso, que tem o condão de unir as pessoas."

A posição do Château Pétrus como um "premier cru" é extra-oficial, porque na "appellation" Pomerol nunca houve nenhuma classificação de vinhos.

A família Moueix, além da vinícola Pétrus, também possui no Pomerol a Trotanoy, a Hosanna, a La Fleur Pétrus, a Latour à Pomerol, a Certan-Marzelle, a Lagrange à Pomerol, a La Grave à Pomerol e a La Fleur Gazin.

Aubert de Villaine, atual proprietário da Domaine de La Romanée-Conti (DRC), localizada na Borgonha, comenta sobre o "Romanée-Conti", descrito como o "encontro do cetim com o veludo" ou, ainda, como "uma mão de ferro em luva de veludo", por aliar estrutura à maciez: "O Romanée-Conti é um vinho cuja qualidade está na finesse, na delicadeza e na complexidade. Ele é também muito raro e, por representar a idéia de 'terroir', que é a essência da Borgonha, tem também um status simbólico".

Ele falou sobre a diferença para outros vinhos: "Estamos em categorias diferentes. Fazemos um vinho que quer expressar o 'terroir', não um varietal ou o talento de um enólogo".

Villaine ofereceu uma degustação do Romanée-Conti de 1997. A garrafa foi aberta uma hora antes e o vinho, mesmo decantado, ainda melhorou muito depois de uma hora de servido, impressionando pelas sensações deixadas na boca (por muito tempo) e na memória (para sempre); enfim, um vinho fino e delicado, porém estruturado e complexo.


CASTAS

As principais castas francesas são:

Da região de Bordeaux:

- a uva "cabernet sauvignon", a rainha das uvas pretas, pequena e de um azul empoeirado, produtora de vinhos austeros e tânicos, com pronunciado sabor de groselha preta; eles precisam de muitos anos para se desenvolverem e podem envelhecer por muito tempo;

- a uva "merlot", produtora de vinhos menos tânicos, mais suaves e mais fáceis de beber, com sabor de ameixas; eles podem ser consumidos mais cedo, em princípio nos oito primeiros anos após a safra; ou, noutras palavras, vinhos macios e ricos, com frequência descritos como "carnudos", os quais se harmonizam bem com os vinhos à base da "cabernet sauvignon", mais estruturados;

- a uva "cabernet franc", muito parecida com a "cabernet sauvignon", porém com características olfativas e gustativas mais leves e taninos em menor quantidade, quase sempre usada em cortes com "cabernet sauvignon", "merlot" e "malbec";

- a uva "sémillon", cor dourada, a principal uva do Sauternes, a uva "sauvignon blanc" (depois da "chardonnay", a segunda uva branca em importância) e a uva "muscadelle", as quais produzem vinhos brancos doces (sem serem enjoativos), uma das glórias da França, sem similar no mundo, máxime pela atuação de um fungo que ataca as uvas e lhes dá um sabor especial;

Da região da Borgonha:

- a uva "pinot noir" (uva de pele fina, sensível, a mais caprichosa de todas as variedades de uva), produtora de vinhos tintos;

- a uva "chardonnay" (nenhuma outra região do mundo consegue cultivá-la tão bem), a rainha das uvas brancas, produtora de vinhos brancos;

- a uva "gamay", produtora dos vinhos Beaujolais, tintos leves, frescos, aroma de morango, concebidos para serem bebidos cedo e com alegria;

Da região do Vale do Rhône: a uva "syrah", cor escura, altos níveis de tanino, aromas e sabores possíveis de serem bastante complexos, produtora dos vinhos Côte Rôtie e Hermitage.


Classificação

As principais classificações são:

De Bordeaux:

- Existem três níveis básicos de "Appellations Contrôlées" (AC): 1º) AC REGIONAL GENÉRICO: todos os vinhos com graduação mínima podem usar a designação AC BORDEAUX; 2º) AC REGIONAIS ESPECÍFICOS: o degrau acima na escala das classificações (por exemplo: AC HAUT MEDOC); 3º) AC LOCAIS: algumas localidades, vilas e aldeias, pelo reconhecido mérito de seus vinhos, conquistaram o direito de usar as suas próprias "appellations": Saint-Estèphe, Pauillac, Saint Julien, Margaux, Listrac e Moulis (no Alto-Médoc), Pessac-Léognan, Barsac e Sauternes (inexiste classificação para a pequena região de POMEROL, cujos vinhos são caros, a partir do famoso Pétrus).

- Temos ainda a classificação de 1855, realizada pelo Sindicato dos Corretores de Vinhos, para a Exposição Universal de Paris. Essa classificação abrange 5 classes de vinhos, num total de 61 (inicialmente 58), sendo 5 "premiers crus" (Lafite, Margaux, Latour, Haut-Brion e Mouton-Rothschild); 12 "deuxièmes", 14 "troisièmes", 11 "quatrièmes" e 17 "cinquièmes". O Mouton-Rothschild só foi elevado a "premiers cru" em 1973 (a única alteração). Os 61 vinhos são mencionados como "grandes cultivos" ou "grands crus classés". As 5 classes de 1855, exceto quanto os "premiers crus", encontram-se hoje misturadas quanto à qualidade. Mas se considerarmos existirem mais de 8 mil propriedades em Bordeaux, podemos entender o privilégio de participar da classificação de 1855 (garantia de bons preços e lucros altos).

- Mas alguns dos chateaux não-integrantes da classificação de 1855 são tão bons ou melhores em relação a muitos incluídos nessa classificação. Então o Sindicato dos Crus Bourgeois do Médoc (uma elite de burgueses em contraposição à nobreza) elaborou outra classificação, e ela divide os vinhos em: "crus bourgeois exceptionnels" (18 vinhos), "grands crus bourgeois" (41) e "crus bourgeois" (68).

Da Borgonha:

Existem cinco níveis básicos de "Appellations Contrôlées" (AC): 1º) AC REGIONAIS GENÉRICAS; exemplo: AC BORGONHA; 2º) AC REGIONAIS ESPECÍFICAS; 3º) AC DE LOCALIDADES (ALDEIAS): os vinhos provenientes de uma única localidade; 4º) "PREMIERS CRUS": as segundas melhores vinícolas da Borgonha; os rótulos mencionam o nome da aldeia, seguido do nome da propriedade vinícola; 5º) "GRANDS CRUS" (para Chablis e Côte D'Or): inclui os melhores vinhos da Borgonha.


CHÂTEAUNEUF-DU-PAPE

"Châteauneuf-du-Pape" é a mais notória "Appellation d´Origine Contrôlée (AOC)" das Côtes du Rhônes Meridionales. Os produtores da região se vangloriam das normas e dos controles exigidos para a utilização do título "Châteauneuf-du-Pape", precursores da lei francesa reguladora das "AOC".

A região "Châteauneuf-du-Pape" produz vinhos tintos (94%), elaborados com até 13 tipos de castas, e vinhos brancos (6%), elaborados com a uva "roussanne", a melhor, e outras.

Na prática, o "Châteauneuf-du-Pape" tinto é produzido quase sempre com a uva "grenache (60% a 80%), a segunda uva mais plantada no mundo, chamada na Espanha de "garnacha". A "grenache" dá um vinho denso e encorporado, mas de menor longevidade. A uva "syrah", produtora do Côte Rôtie e do Hermitage, duas jóias de vinho, é o complemento ideal da "garnache": contribui para o "Châteauneuf-du-Pape" ter longevidade, cor, elegância, taninos finos e aromas de frutas e especiarias.

O "Châteauneuf-du-Pape", 1999, do produtor Guigal, um dos mais importantes da região, ganhou o prêmio de "Vinho do Ano", de 2002, da "Wine Spectator", renomada revista americana. Esse fato colocou o "Châteauneuf-du-Pape" em evidência, mas a produção da região é muito irregular. Alguns produtores fazem um vinho medíocre e utilizam o nome da "AOC" para vendê-lo a um preço incompatível com a qualidade. O vinho bom é rico, encorpado, bem equilibrado e com aromas de frutas e especiarias.

"Châteauneuf-du-Pape" (Castelo do novo Papa) é o nome de um castelo construído pelo papa João XXII, sucessor de Clemente V.

O papa Bonifácio VIII excomungou Filipe IV, o Belo, rei da França. Filipe IV, em contrapartida, destronou Bonifácio VIII e o substituiu por Bertrand de Goth, arcebispo de Bordeaux, o qual adotou o nome de Clemente V e transferiu, em 1309, a sede do papado para Avignon, no sul da França, onde se manteve por quase 70 anos. Esse episódio é conhecido como "cativeiro babilônico de Avignon". Clemente V fundou vinhedo em Bordeaux denominado Château Pape Clement.

João XXII e mais três outros papas utilizaram o castelo, hoje em ruínas, como residência de verão. Localizada entre Avignon e Orange, na margem esquerda do rio Rhône, a cidade de Calcernier, sede do castelo, passou a chamar-se "Châteauneuf-du-Pape".

São bons produtores de "Châteauneuf-du-Pape", dentre outros: Château de Beaucastel, Château Rayas, Domaine Guigal ou Château La Nerthe, Château Mont-Redon, Domaine du Vieux Télegraphe, Château Fortia, Château La Gardine. Alguns produtores exibem nas garrafas as armas papais em alto-relevo, mas isso não garante bom vinho.