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ARTIGOS



ALDEMIR MARTINS - 80 ANOS

"Eu, o Mário Barata, o Barboza Leite e outros formamos a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), no início da década de 40. Fazíamos 'vaquinhas' para comprar livros sobre pintura, um ensinava ao outro o que ia aprendendo e assim por diante", conta Aldemir Martins, o qual acrescenta: "A atuação da SCAP foi importante porque nós estávamos procurando a 'coisa' brasileira. Eu fazia isso por meio das cores que utilizava." Prossegue Aldemir: "O que mais me influenciou naqueles anos foi aprender a usar a liberdade para criar."

Aldemir Martins, em 45, aos 23 anos, emigrou de navio do Ceará para o Rio de Janeiro e reencontrou Antônio Bandeira, Inimá de Paula e Jean Pierre Chabloz, os quais haviam partido pouco antes.

Em 46, Bandeira transferiu-se para Paris e Aldemir seguiu de trem para São Paulo. Desembarcou na Estação do Brás e começou nova vida.

"Não posso fugir à temática nordestina. Não posso negar a influência de tudo o que eu mastigo, respiro, como e vivo", comentou em 22.jul.97 Aldemir, nascido em 08.nov.22 em Ingazeiras, Vale do Cariri, Ceará, filho de funcionário público (Miguel) e de uma índia tapuia (Raimunda). Lembra ele: "Eu tinha dez ou onze anos quando fiz o primeiro desenho. Foi na escola em Guaiúba: fiz um porquinho em cima da porquinha." (30.07.97).

O primeiro emprego em São Paulo foi no diário "A Noite", dirigido por Menotti del Picchia. "Lá, aprendi a ser prático", recorda Aldemir destacando essa experiência.

A semente na paulicéa começou a crescer e Aldemir ressalta sua participação, em 47, na exposição "19 Pintores", promovida pela União Cultural Brasil-Estados Unidos, congregadora de grandes artistas, como Marcelo Grassmann e Mário Gruber, na qual ganhou o 3º lugar.

São importantes conquistas de Aldemir, desenhista, pintor, escultor, ilustrador e capista: Salão de Abril, Fortaleza, em 48; Prêmio de Desenho - I Bienal de São Paulo, com "Cangaceiro", em 51; Prêmio Aquisição - II Bienal de São Paulo, 53; 1º Prêmio de Desenho - III Bienal de São Paulo, 55; Prêmio de Desenho (Melhor Desenhista Internacional) da XXVIII Bienal de Veneza, em 56, único sul-americano vencedor desse título; Medalha de Ouro no V Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro, em 56; Prêmio Viagem ao País - VI Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro, em 57; Prêmio Viagem ao Exterior - VIII Salão de Arte Moderna, Rio de Janeiro, em 59.

No papel, Aldemir fez xilogravura, metal, serigrafia e litografia. Como artista de assunto regional, seus trabalhos enfocam cangaceiros, rendeiras, a fauna (peixes, aves, gatos) e a flora.

"Acertei ao buscar o brasileiro e ao tocar no tema do cangaço", ressalta Aldemir, o qual participou de mais de 150 exposições individuais (no Brasil e no exterior).

Ilustrou romances de Jorge Amado e Rachel de Queiroz e desenvolveu um estudo original, em bico-de-pena, para "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Compôs a abertura das telenovelas "Terras Sem Fim" e "Gabriela, Cravo e Canela", baseadas em obras de Jorge Amado.

"Acho que os produtos democratizam a arte", observa Aldemir, o qual tem obras reproduzidas em produtos industriais. Relata ele: "Certa vez, eu estava navegando pelo rio Amazonas e, ao descer do barco, um homem veio me dizer que tinha um trabalho meu. Foi até em casa e voltou com uma de sorvete Kibon que tinha uma imagem minha."

"(...) Ninguém viu senão os cangaceiros, quero dizer: o assunto. Ninguém prestou atenção ao desenho, linhas, formas, manchas", pensou Aldemir, o qual explicou, na mesma oportunidade (out/61), o seu tracejado: "(...) aprendi das rendeiras, ponto de mosca, cruz e bico, e rendas mesmo, trançado de palhas de chapéu de catolé e de caçuá de bananas."

O assunto nos trabalhos de Aldemir revela realmente extraordinária capacidade de comunicação, marca fundamental do "grande desenhista, mestre de seu ofício", segundo Jorge Amado.

Mas todos nos intrigamos com o desenho, linhas, formas e manchas de Aldemir e nos perguntamos como da mão humana pode resultar o seu tracejado, por sua complexidade e perfeição. Aí está o artista: ele, por seu talento, sente, descobre e transpõe para sua obra novas percepções sobre a espectralidade da vida, e, assim, podemos conhecer o mundo em novas percepções.

"O local da maior concentração de cangaceiros é nas paredes de São Paulo, em quadros desenhados e pintados pelo cearense Aldemir Martins", observou Pádua Lopes, o qual, com maestria, conclui: "O tema é regional, mas a sua dimensão artística é universal, tanto que ele espalha seus quadros e arrebata prêmios nos quatro cantos do mundo."