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ARTIGOS



ONDAS DE GLOBALIZAÇÃO

O general Paulo Laranjeira, analisando o processo de globalização, avalia que uma coisa é aceitar a incidência da globalização na economia, outra coisa é admitir que, por isso, o Estado Nacional deve abrir mão de seus valores fundamentais.

Adverte o general que as questões de segurança estão deixando, no rastro do processo de globalização, o enfoque geopolítico para se ater ao geoeconômico; em consequência, há um enfraquecimento do chamado Estado-Nação.

Nos últimos 200 anos, o mundo conheceu diversos períodos (seis) de processo de globalização e, a cada período, verifica-se, de início, uma expansão do comércio e dos investimentos internacionais, respaldada por um aumento da confiança na ideologia da globalização, para, em seguida, vir a dúvida e a contração.

A tecnologia acompanha as ondas de globalização, mas é principalmente o comércio (e não a política, a ciência ou a cultura) que puxa a globalização.

Cada um dos períodos de globalização combinou uma expansão tecnológica com uma expansão do comércio e do crédito internacional. Em todos esses períodos, o comércio sempre procurou explorar, com entusiasmo, de forma criativa, o potencial das novas tecnologias.

Estudos de história econômica revelam os seguintes períodos de globalização, os quais conjugam a expansão do comércio e do crédito internacional com as inovações tecnológicas correspondentes (alinhamos somente as principais):

1. nas décadas de 1980 e 1990, a aplicação comercial da internet;
2. na década de 1960, a disseminação das telecomunicações e do "softwares";
3. na década 1920, o desenvolvimento comercial do automóvel e do avião; a popularidade do cinema e da radiofusão; crescimento do número de aparelhos pessoais de telefone;
4. nas décadas de 1880 e 1890, a difusão da eletricidade, desenvolvimento do motor de combustão interna; rápida inovação no processo e na tecnologia de produção de jornais;
5. na década de 1860, maior disseminação da ferrovia; desenvolvimento da construção naval; crescimento acelerado do número de empresas;
6. nas décadas de 1820 e 1830, a energia a vapor começa a ser utilizada nas estradas de ferro e no processo de fabricação; surgimento das primeiras ferrovias para transporte de passageiros e das primeiras empresas de iluminação a gás, desenvolvimento e expansão do telégrafo.

Mas precedeu, a cada um desses processos de globalização, uma grande e comprovada expansão da liquidez nos países ricos tidos como centros financeiros mundiais. O aumento de liquidez com a queda nas taxa de juros reais induziram os investidores a buscar novas fontes de investimento; esses investidores também liberaram o seu apetite pelo risco, tanto para investimentos em novas tecnologias como para mercados menos desenvolvidos.

A globalização aconteceu porque os poupadores se tornaram mais aventureiros e o capital chegou a todos os recantos do planeta, facilitado pelas comunicações e os transportes. A globalização foi basicamente uma decorrência do aumento significativo, em todo o sistema, do apetite dos investidores dos países ricos por riscos.

O fim de todas as globalizações ocorre com uma contração monetária, a qual se desencadeia quando os banqueiros e as autoridades financeiras começam a preocupar-se com os excessos do mercado. Vem o colapso dos mercados financeiros, desaba a confiança nos livres mercados, o investidor reduz, acentuadamente, seu apetite pelo risco e desaparece a liquidez global.

No momento, vivemos um estágio no qual a ideologia da globalização ainda goza de grande prestígio e de aceitação social. Existe um grande respaldo ao livre comércio e à liberalização econômica e política, que, conjugados aos avanços tecnológicos e a outros processos, formam o que a maioria das pessoas entende por globalização.

A sociedade, aí incluída a classe média e a média baixa, aceita a erosão da soberania nacional e aceita as diferenças culturais decorrentes dos mercados de capitais internacionais e as decorrentes da circulação de produtos. A sociedade aceita arcar com esses custos sociais e psíquicos porque os influxos de capitais servem para manter os valores dos ativos e para incentivar os estilos de vida consumistas.

Apesar do prestígio e da aceitação da globalização, já se observam alguns dos sinais de excessos e de queda da confiança, com a retração da liquidez global. A participação dos países em desenvolvimento nos fluxos privados de capital em todo o mundo caiu de 14,4%, em 1997, para 7,6%, em 2000; a participação dos países em desenvolvimento no volume global de investimentos diretos caiu de 36,5% para 16% no período. Após registrar saldos positivos entre 1991 e 1998, o balanço dos fluxos financeiros dos mercados emergentes (entrada e saída de empréstimos, investimentos diretos e aplicações em bolsas) entrou no vermelho em 1999 e 2000; no ano 2000, os mercados emergentes receberam US$ 299,3 e desembolsaram US$ 306,6 bilhões. Esses são dados de documento divulgado em 10.04.2001 pelo BIRD.

O general Paulo Laranjeira tem razão quando fala em enfraquecimento do chamado Estado-Nação. Tem razão o general Laranjeira quando diz que as estratégias de inserção do Brasil devem ser definidas por nós, levando em conta nossas realidades, nossos valores e nossos ideais.

David de Ferranti, vice-presidente do Bird, deu aos brasileiros algumas dicas nesse sentido. Alertou ele: "Muitos países ricos falam de livre comércio, mas não o praticam. Eles dizem que o Brasil deve liberar o comércio, mas eles próprios não fazem o mesmo. Há inúmeras barreiras à entrada de produtos agrícolas nos EUA e na Europa". Orientou ele: "Cada país possui suas próprias vantagens e o Brasil tem enormes vantagens (seus recursos naturais, uma numerosa força de trabalho, boas condições para o crescimento, custos de mão-de-obra não tão elevados. Cada país precisa se especializar naquilo que lhe assegure um retorno mais alto". David de Ferranti interpreta:

"Há outros países no mundo que se têm beneficiado enormemente do uso de seus recursos naturais. Olhe para o Canadá, que tem uma economia inteiramente resultante do uso de seus enormes recursos. Outro exemplo é a Austrália".

A ênfase do vice-presidente do BIRD nos recursos naturais do Brasil lembra o destaque que o general Paulo Laranjeira dá à Amazônia: 5 milhões de km2; 1/5 da água potável do planeta; 1/3 das florestas do mundo; o maior banco genético da terra; abundância de recursos econômicos como petróleo, gás natural e reservas mineralíferas.

"Muitos países ricos falam de livre comércio, mas não praticam", disse David de Ferranti. Mas o Brasil abriu o seu mercado para as importações de produtos acabados, de acordo com o estilo de vida consumista (a ilusão de que todo mundo tem de participar do consumo de estilo ocidental). Em quinze anos, a balança comercial brasileira passou de um superávit de US$ 12,5 bilhões (1985) para um déficit de US$ 697 milhões (2000). Como resultado, temos uma conta: nossa dívida externa em 1999 é de US$ 237 bilhões, equivalendo a mais de 40% do PIB (essa dívida em 1990 importava em US$ 123 bilhões, ou 26% do PIB).