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ARTIGOS



TEORIA DOS JOGOS - II

Thomas Schelling, 84, e Robert Aumann, 75, receberam em 10 out. 2005 o Prêmio Nobel de Economia por suas contribuições individuais para melhorar nossa compreensão das situações de conflito e de cooperação por meio da análise da teoria dos jogos (Valor, São Paulo, 11 out. 2005, p. A10).

Schelling desenvolveu a teoria dos conflitos internacionais e influenciou fortemente as atitudes dos EUA no tocante à tensão nuclear da Guerra Fria, nos anos 1950 a 1960. A teoria deu aos EUA a base para a grande estratégia da Guerra Fria, ou seja, a transformação do uso das armas nucleares em algo tão terrível de modo a não ser cogitado seriamente por nenhuma potência (a “détente”). Fora da esfera geopolítica, Schelling percebeu a tendência das pessoas individualmente a cooperar mais de pronto, em comparação a um grupo. Em seu livro “A estratégia do conflito”, de 1960, Schelling fala da importância do comprometimento, da habilidade política e do uso de ameaças críveis como armas estratégicas a serem usadas quando se chega a um impasse entre duas partes (id.).

Aumann concebeu a análise dos “jogos repetidos”, aplicada a questões tão diversas quanto conflitos políticos, tratados internacionais e acerto de ações entre empresas. Ele utiliza a lógica e a matemática para entender as opções à disposição das pessoas quando elas se vêem diante dos mesmos oponentes cotidianamente. Quando situações estratégicas se repetem muitas vezes, mesmo quando os indivíduos têm conflitos imediatos de interesse, a oportunidade de criar cooperação aumenta, pois os indivíduos terão de lidar com a outra parte várias vezes de novo no futuro (id.).

A teoria dos jogos é a ciência do conflito, explica Aloísio Pessoa de Araújo, vice-diretor da Escola de Pós-graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rio de Janeiro. O jogador é todo agente com participação e com objetivos num jogo, tanto faz ser um país, um grupo ou uma pessoa. Schelling e Aumann vêem, cada um a seu modo, como funciona a mecânica de escolher as estratégias de cooperação. Quanto mais você conhece seu adversário e prevê suas reações, maior a possibilidade de não se confrontarem no chamado jogo de soma zero, no qual um ganha e outro perde. No jogo positivo, o embate destruidor não ocorre porque a retaliação é crível. Se antevemos a retaliação, agimos para evitá-la, concluiu Araújo (id.).

A teoria dos jogos lida com situações de conflito. Quando se sabe as ações futuras de seu concorrente, é preciso saber qual a melhor estratégia para vencê-lo, comenta Alexandre Sartoris, professor de Economia da Universidade Estadual Paulista (UNESP). A Microsoft (exemplifica Sartoris) decidiu lançar a versão 3.0 do “Windows” ainda inacabada e com muitos defeitos, a fim de evitar a concorrência da IBM. A empresa de Bill Gates sabia do esforço da IBM no projeto “OS2”, plataforma semelhante ao “Windows”, e corria o risco de perder mercado, caso a IBM lançasse o seu programa antes. A decisão da Microsoft valeu a pena. Ela conquistou o mercado e, depois, lançou a versão aprimorada 3.1. Recompensou os compradores da 3.0 com a versão 3.1 gratuita. O programa da IBM, considerado até superior ao “Windows”, não decolou e morreu em pouco tempo. Nesse caso, não houve cooperação, mas sim enfrentamento (id.).

No caso de assaltantes, quando incomunicáveis, a teoria dos jogos prevê a opção pela delação por parte de ambos. Se apenas um delatar, ele fica preso por 2 anos e o denunciado, 5 anos. Se ambos delatarem, os dois ficam presos durante 3 anos. Se nenhum falar nada, ambos pegam 1 ano de xadrez. Assim, sem informação a respeito do comportamento do outro, ambos perdem 3 anos atrás das grades, comenta Aloísio Pessoa de Araújo (Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 out. 2005, p. B10).

O exemplo dos assaltantes, conhecido como “Dilema do prisioneiro”, foi criado em 1950 pelo professor Albert Tucker, de Princeton. Embora o resultado final não seja o melhor entre os possíveis, a alternativa mais adequada ao dilema é confessar, de acordo com o equilíbrio de Nash (Valor, São Paulo, 04 nov. 2005, Eu & Fim de Semana, p. 18).

No caso de duas duopolistas, se ambas não iniciassem uma guerra de preços, cada uma manteria metade do mercado com um preço alto. Se uma baixa os preços e a outra não reage, toma o mercado da concorrente. Mas se as duas guerreiam até o fim, terminarão com a metade do mercado cada uma e um preço mais baixo. No fundo, a melhor decisão por parte de cada uma depende da suposição sobre qual é a melhor decisão para a outra. Esse tipo de análise, no qual uma das partes leva em conta as ações das outras com as quais interage, tem um componente estratégico e não está presente na economia clássica. Nela prevalece a idéia de um mercado competitivo no qual cada produtor individual não tem capacidade de influenciar, observa Aloísio Pessoa de Araújo (Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 out. 2005, p. B7).