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ARTIGOS



O EMPRESÁRIO É UM GUERRILHEIRO

Fazer negócios no Brasil é uma guerrilha. Convivemos com toda sorte de distorções. Leis em excesso, custo alto do dinheiro e muitos impostos, também cobrados de forma errada. A carga tributária já passou do limite da realidade econômica e o sistema tributário é medieval. A estrutura de cobrança dos impostos, com exigência de pagamento antecipado na fase de investimento, antes de iniciar a operação, é uma cultura enterrada no mundo moderno, mas ainda não conseguimos romper esse traço cultural.

No Brasil, os impostos consomem 54% do valor adicionado ao preço do produto. Fora do Brasil, esse percentual é só de 14%. A carga tributária e, também, o custo do dinheiro tornam muito difícil competir produzindo no Brasil. Mesmo nas operações financeiras feitas no exterior, sempre pagamos um resíduo do risco-Brasil, hoje acima de 400 pontos (100 pontos no Chile).

Esse índice de 400 pontos está correto, assim como a percepção dos estrangeiros sobre o Brasil. Ainda enfrentamos problemas graves, e é vital reconhecê-los. Os brasileiros incorporaram ao comportamento cotidiano várias formas de tolerância. Cada uma delas é pequena em si, mas a soma delas gera insegurança patrimonial e jurídica. Essa tolerância existe na forma de violações ao direito de propriedade, entraves à recuperação de créditos, resistência ao pagamento de impostos ou mesmo no simples ato de desrespeitar a faixa de pedestres ou jogar lixo pela janela do carro. Todo mundo quer ser esperto, mas, no fim, todos os espertos pagam a conta, na forma de juros mais altos e desconfiança. Outros países já passaram por esse ciclo. Não há saída num passe de mágica, mas existe saída. Os benefícios vêm aos poucos.

Os juros altos decorrem, em primeiro lugar, do elevado risco de calote. Depois, da necessidade de financiamento do Estado. Com sua dívida enorme, o governo compete com as empresas e as pessoas físicas na obtenção de recursos no mercado financeiro. Além disso, em nenhum lugar do mundo se arrecadam tantos impostos sobre a intermediação financeira.

Os gastos públicos no Brasil precisam ser reduzidos de 40% (37% custeados pelos impostos e 3% cobertos pelo financiamento) para 30% do PIB, a fim de permitir uma poupança de 10%, a ser destinada aos investimentos para viabilizar o pleno emprego e crescimento. A poupança pública tem sido nula ou até negativa nos últimos vinte anos. A poupança privada está em torno de 20% do PIB. Na China, a soma da poupança pública e da poupança privada está acima de 40%.

Só há uma saída para reduzir os gastos públicos: melhorar a gestão, ter mais eficiência. O segredo está na tecnologia de gestão. Mas a tecnologia de gestão não está na cultura governamental brasileira. Há um pequeno núcleo trabalhando com isso em Brasília, mas de forma periférica. Independentemente do tamanho do problema, uma boa gestão é aquela obcecada em rever os procedimentos, eliminar as perdas e ganhar a eficiência.

O Brasil foi beneficiado, no atual governo, por uma expansão sem precedentes da economia mundial. O mundo vive um ciclo de raro crescimento. As três macroregiões (EUA, Europa e Ásia) estão crescendo simultaneamente. O Brasil entrou nesse embalo e conseguiu o crescimento de 5% do PIB em 2004. Mas esse crescimento não teria sido possível sem a adoção de ações firmes de combate à inflação. A confiabilidade da política econômica encorajou os investimentos empresariais.

No grupo Gerdau, quem deseja os postos de maior significação tem de apresentar as suas credenciais de trabalho, capacidade e dedicação.

Resumo da entrevista de Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do grupo Gerdau, com dezesseis fábricas no exterior e dez no Brasil, à revista Veja (Veja, São Paulo, n. 1.902, 27 abr. 2005, p. 11). Como o mais global dos empresários brasileiros, Johannpeter está num posto de observação privilegiado para analisar as condições de fazer negócios no continente americano.