Digite a palavra-chave

A busca é efetuada em todas as páginas do site e abrange todo o seu conteúdo.
Página principal




ARTIGOS



JUROS E CRESCIMENTO

A taxa de juros é provavelmente uma das principais razões pelas quais o Brasil não alcança o crescimento sustentado. Há outros fatores, como a taxa de poupança, ainda inferior à dos países do Leste Asiático. O governo também não investia suficientemente em educação até dez anos atrás e hoje o sistema educacional não é o ideal. As grandes desigualdades contribuíram também para os problemas relacionados com o crescimento. O Brasil estava crescendo a 5% ou a 6% ao ano nas décadas de 50, 60 e 70. A década de 1980 foi horrível. Agora o crescimento é desapontador e uma das razões para isso são as altas taxas de juros. Quando as taxas permanecem tão elevadas, há algo errado, conclui Joseph Stiglitz, Nobel de Economia em 2001 (Valor, São Paulo, 29 abr. 2005, “Eu & Fim de Semana”, n. 241, p. 4).

A oferta de crédito é essencial para o crescimento. Uma boa regulamentação dos padrões de crédito é muito importante. Se for insuficiente, pode causar uma bolha. Se for excessiva, pode tornar o crédito difícil de obter-se e gerar recessão. Quando uma bolha estoura, pode resultar em excesso de regulamentação, como ocorreu nos EUA na década de 1980, quando houve o colapso das instituições de poupança e empréstimo (id.).

O dólar sempre foi a principal moeda internacional e a sua desvalorização causou muita instabilidade nos mercados financeiros globais. Essa instabilidade é um dilema e não é boa para a economia global. Os investidores de longo prazo não sabem direcionar os investimentos. As pessoas acreditavam na necessidade de ter reservas em dólar. Agora perceberam não ser o dólar uma moeda muito boa para as reservas e estão diversificando seus portfólios com euros e outros investimentos (id.).

As evidências sobre o efeito das taxas de juros altas para o desaquecimento da economia são muito fracas. Não mudaria nenhuma previsão de crescimento econômico em função da taxa de juros. O Brasil está tentando deixar de ser um país com um enorme problema de inflação para tornar-se um país com um pequeno problema de inflação. As taxas de juros só cairão quando os brasileiros passarem a viver com confiança num ambiente de baixa inflação. Essa mudança pode levar anos. Se tivessem certeza de baixa inflação, todos os brasileiros aceitariam uma taxa de juros de 6%, ao invés de 20%. A política monetária deve concentrar-se na inflação e não há nenhum motivo para permitir-se a alta de preços. Política monetária e política fiscal estão atreladas até certo ponto, é só uma questão de grau. Os empréstimos a juros baixos concedidos a certos grupos dificultam a determinação do limite definidor da política fiscal, avalia Robert Lucas, Nobel de Economia em 1995 (Valor, São Paulo, 29 abr. 2005, “Eu & Fim de Semana”, n. 241, p. 16).

As diretrizes políticas e econômicas básicas são as mesmas nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Temos as mesmas instituições. Somos essencialmente sociedades do mesmo tipo. Existem diferenças na dimensão conferida pelo Estado ao bem-estar social. Essa dimensão é maior na Europa, em relação aos EUA. Países sem uma democracia estável, em bom funcionamento, ainda não possuem instituições fortes. O Consenso de Washington corporifica as melhores diretrizes no tocante ao livre comércio e às responsabilidades monetárias e fiscais (id.).

A América Latina sempre teve um crescimento com interrupções e retomadas. Uma das razões pelas quais fracassamos em promover o desenvolvimento econômico no mundo foi pelo fato de não termos posto em prática uma boa teoria das instituições, capaz de incentivar o crescimento. O Estado deve possibilitar o livre acesso de todos ao mercado econômico e ao sistema político, condição essencial para um país de alta renda. Em grande parte do mundo, na maior parte da América Latina, incluindo o Brasil, existe o Estado natural, no qual grupos políticos e econômicos capturam juntos as riquezas e limitam os mercados, criando monopólios. Para sair dessa situação e criar mercados de acesso livre, é preciso eliminar as restrições econômicas e políticas à entrada no mercado, analisa Douglass North, Nobel de Economia em 1993, cujos estudos deram origem ao “neo-institucionalismo” (Valor, São Paulo, 29 abr. 2005, “Eu & Fim de Semana”, n. 241, p. 8).

As colônias dos EUA, sem ouro nem prata, receberam desde cedo autonomia governamental dos britânicos, os colonizadores. Com governos próprios, as colônias trouxeram a estrutura de direito à propriedade desenvolvida na Inglaterra. Uma estrutura eficaz de posse da terra. Quando se tornaram independentes, no início do século XIX, os EUA já tinham uma estrutura viabilizadora de uma economia próspera (id.).

Na América Latina, durante os primeiros duzentos anos de colonização pelos espanhóis e pelos portugueses, criou-se um conjunto de instituições incapaz de permitir o direito à propriedade e a democracia. Só existiam monopólios concedidos pelo Estado aos mercadores. Os países recebiam ajuda de Madri ou Lisboa, sem ter em mente o desenvolvimento econômico. A herança continua. Países latino-americanos ainda contam com um poder executivo forte, um poder legislativo fraco e, pior, com regras mudadas a todo momento. Esse quadro prejudicou e impede o desenvolvimento da América Latina (id.).

O direito de propriedade incentiva as pessoas a produzirem. O Estado deve ser suficientemente forte para garantir o direito à propriedade e fazer valer as leis. Caso contrário, não há crescimento algum (id.).

As taxas de juros altas refletem uma situação na qual ainda há preocupação sobre o longo legado de inflação. O Brasil paga o preço da instabilidade do passado. Num país com histórico diferente, as taxas seriam mais baixas. Levariam em conta apenas os fundamentos reais da economia, comenta Jeffrey Sachs, economista, representante especial das Nações Unidas para acompanhamento das Metas do Milênio (Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 abr. 2005, p. B3).

O juro alto no Brasil é um mal necessário para afastar o risco de inflação, avalia Paul A. Samuelson, Nobel de Economia de 1970, autor de “Economia”, obra lançada em 1947 (Valor, São Paulo, 16 maio 2005, p. A12).

A redução dos gastos do governo é, por unanimidade, a principal alternativa ao juro alto para o controle da inflação. Em seguida, vem o ataque ao déficit nominal (Valor, São Paulo, 20 maio 2005, p. C1).

A teoria econômica não recomenda o uso dos juros altos como instrumento de combate ao aumento dos preços porque, na maioria dos casos, a inflação é um problema do lado da oferta, e a taxa de juros incide sobre o lado da demanda, afirma João Sicsú, professor do Instituto de Economia da UFRJ (id., C1).

A combinação de juros altos e câmbio valorizado, como ocorre agora no Brasil, é uma receita para a estagnação econômica. A economia brasileira não pode crescer quando a taxa de juros real é cerca de três vezes superior à taxa de crescimento. O Brasil passou muitos anos sem investir e agora vários setores da economia atingiram o seu limite de oferta. Parte da pressão inflacionária de hoje decorre desse fato (id., A6).

No “ranking” de juros reais (taxa de juros nos últimos 12 meses, descontada a inflação), de abr. 2005, o Brasil figura em 2º lugar com a taxa de 8,2%, abaixo da Turquia (10,8%). O “ranking” é elaborado pela GRC Visão (Valor, São Paulo, 18 maio 2005, p. C2).

O PIB brasileiro cresceu 5,2% em 2004. No período de 1995-2004, a média de crescimento foi de 2,4%. No mesmo período, a taxa de investimento média foi de 19,3%, assinala o general Júlio Lima Verde Campos de Oliveira, comandante da 10ª Região Militar.