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ARTIGOS



TSUNAMI FINANCEIRO

A irresponsabilidade fiscal está de volta nos EUA. Os enormes e prolongados déficits dos EUA constituem uma ameaça não apenas para a sua prosperidade, mas também para a saúde da economia mundial. As regras corriqueiras das finanças globais valem para todos. Hoje, no entanto, as pregações em favor da retidão fiscal costumam ser desconsideradas nos EUA. Mais uma vez, um governo americano alardeia enormes cortes de impostos, como forma de estimular o crescimento econômico, e amplia ao mesmo tempo os gastos militares. Ninguém resiste a um almoço grátis, e aumento de impostos e corte de gastos são sempre dolorosos. No final, porém, o governo dos EUA será obrigado, num esforço maior, a restaurar a sua disciplina fiscal. A economia mundial certamente será afetada nesse reordenamento. A perca da confiança pelos investidores na capacidade de os EUA administrar suas questões fiscais é um cenário mais desalentador, conclui Alice M. Rivlin, pesquisadora da Brooking Institution, professora da Universidade Georgetown, diretora da Comissão de Administração e Orçamento no primeiro governo Clinton, ex-vice-presidente do Federal Reserve – FED de 1996 a 1999 (Veja, São Paulo, n. 1886, 05 jan. 2005, p. 74).

Os EUA têm tido um grande déficit em conta corrente nos últimos 25 anos. Agora ele é de 5% a 6% do PIB. O déficit é conseqüência da falta de poupança nos EUA, combinada com a disposição do resto do mundo de continuar a investir nos EUA. Das três grandes economias (EUA, Europa e Japão), os EUA são a mais atraente e a de maior taxa de crescimento. O fluxo de recursos alimenta o excesso de gasto e de investimentos nos EUA, bem assim faz perdurar o déficit em conta corrente, explica Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia de 1999 (Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 dez. 2004, p. A12).

O dólar está muito fraco (o euro a US$ 1,30), mas não ficará nesse nível. Ele irá recuperar-se com o crescimento da economia americana. Não acredito na cotação do euro de US$ 1,60 a US$ 1,70. O euro atingiu o seu pico e irá cair. A queda é boa para a Europa, principalmente para os países europeus dependentes de exportações (id).

Os investidores internacionais se cansarão de financiar o déficit recorde em conta corrente dos EUA, alerta Alan Greenspan, presidente do FED. Em 19 nov. 2004, o dólar chegou a ser negociado a US$ 1,3042 por euro, a menor cotação do dólar ante o euro em mais de quatro anos. A declaração de Greenspan ajudou a derrubar o dólar (Gazeta Mercantil, São Paulo, 22 nov. 2004, p. A-1).

Os EUA são, de longe, o país absorvedor da maior parcela da poupança mundial. Mas não é sustentável um déficit em conta corrente de 5%. Quando a crise chegar, num futuro não tão distante, veremos o dólar perder, no mínimo, 15% de seu valor, podendo chegar a uma queda de 40%. O impacto será mundial. Depois do terrorismo, esse é o maior problema macroeconômico do mundo. Infelizmente, Alan Greesnspan, presidente do FED, não pensa como eu, avalia Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard, ex-economista-chefe e diretor do Departamento de Pesquisa do FMI (Veja, São Paulo, n. 1862, 14 jul. 2004, p. 11).

Os participantes do mercado estão cada vez mais preocupados com a magnitude dos déficits público e em conta corrente dos EUA, bem como com o ritmo e a profundidade da depreciação do dólar norte-americano, observa Lisa M. Schineller, diretoria da Standard & Poor’s (Folha de S. Paulo, São Paulo, 09 jan. 2005, p. B8). Um declínio rápido e acentuado do dólar, numa extensão imprevisível, poderia afetar a volatilidade dos mercados financeiros.

O atual nível de endividamento dos EUA não é sustentável, opina Elhanan Helpman, professor de comércio internacional da Universidade Harvard. Em algum momento, algum tipo de ajuste terá de ser feito. O governo poderá cortar os gastos ou aumentar os impostos. Como ninguém sabe quando e como será feito, as incertezas aumentam no sistema econômico (Veja, São Paulo, n. 1.887, 12 jan. 2005, p. 11).

Os desequilíbrios da economia dos EUA poderão ser mantidos por mais tempo. Afinal, as empresas americanas são muito lucrativas e o país continua a ser um lugar interessante para investir. A economia americana continua a deter boa parte das inovações e das melhores empresas do mundo. Mas há o risco de um instante de pânico detonar uma onda de desconfiança no dólar. Uma crise nos EUA seria muito ruim para os países emergentes, como o Brasil. O mais importante para o mundo emergente é o déficit externo não vir a ser enfrentado pelos EUA com o protecionismo, adverte Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia de 1987 (“Um gigante endividado”. Exame, São Paulo, n. 834, 19 jan. 2005, p. 38).

Os EUA têm hábitos “inapropriados” para um guardião da principal moeda de reserva do mundo, adverte “The Economist”, 04 dez. 2004 (Primeira Leitura, São Paulo, n. 35, jan. 2005, p. 26). Os EUA apresentam endividamento crescente do governo, furiosos gastos com consumo e um déficit em conta corrente tão grande capaz de levar qualquer outro país à bancarrota. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o dólar cumpre o papel de moeda de reserva global.