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ARTIGOS



TARSILA DO AMARAL & DI CAVALCANTI

Eles, dentro do modernismo, melhor expressaram a idéia da identidade nacional. A partir de obras coerentes e bem peculiares, sintonizadas com as mais avançadas expressões da cultura internacional, numa linguagem nova, eles incluíram e pintaram o popular, o jeito de ser do brasileiro, a cultura do ‘outro’ (o caipira, o negro, o caboclo, o suburbano, o boêmio, as culturas do interior brasileiro, as favelas, o botequim, as ruas da cidade), marginalizada pela elite, esta com sua arte acadêmica, pautada nos cânones europeus.

Aliás, a missão manifesta do movimento modernista brasileiro foi a inclusão social e cultural do ‘outro’. A Semana de Arte Moderna de 1922 propôs a integração de valores excluídos pela cultura dominante e a quebra de padrões de comportamento de artistas e intelectuais. Oswald de Andrade, questionador do papel do intelectual e do artista no processo de transformação política e social, sentenciou: “A massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico.”

Ambos, Tarsila e Di, optaram pela figuração como a melhor forma de mostrar a cultura brasileira por intermédio da pintura. Ambos mostravam uma vontade de atualização da linguagem, componente forte das vanguardas européias. Eles então retrataram, cada qual com identidade própria e dentro da nova linguagem européia, aspectos culturais brasileiros e a temática social. Para se comunicar com o povo, era preciso mostrar o próprio povo, achava Di Cavalcanti, mas ele introduziu pés agigantados e figuras monumentais, numa explícita assimilação de Picasso.

Essa opção pela figuração, embora em linguagem nova, determinou a demora na chegada da abstração às artes plásticas no modernismo. Diferentemente da opinião de muitos, os artistas decidiram essa demora.

Tarsila, paulista, filha de família da aristocracia rural do interior, viajou para Paris em 1920 e freqüentou os ateliês de André Lhote, Fernand Léger e Albert Gleizes. Retornou dois anos depois com influências pós-cubistas e legerianas. Utilizou essas influências para representar o homem e o entorno brasileiro. Adotou também como temática as memórias de infância na fazenda, as festas populares, as histórias ouvidas dos ‘pretos velhos’. Mesclou recordações e o decorativismo popular.

Di Cavalcanti, carioca de São Cristovão, estreou em 1917 como caricaturista e conheceu de perto em Paris as obras de Picasso e Léger. Nessa época, Di pintou paisagens e naturezas mortas. Depois, ficou conhecido como o pintor das mulatas. Sua pintura sempre se inspirou na vivência direta do cotidiano. Consciente da sua função como agente transformador, retratou as pessoas com as quais ele conviveu, observado um realismo dito ‘passional’ (no sentido de mostrar-se apaixonado). Sua obra, centrada no olhar para o real popular, denota visão política.

Há hoje alguns pontos de conexão com o momento inicial do modernismo: o artista contemporâneo, nos últimos anos, tem buscado um retorno ao real, observa Maria Alice Milliet, curadora da mostra “Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti: Mito e Realidade no Modernismo Brasileiro” (Museu de Arte Moderna, Parque Ibirapuera, São Paulo, de 27 out. a 15 dez. 2002, comemorativa dos cem anos da Semana de Arte Moderna de 1922).

Concluiu ela: “Há, sem dúvidas, uma aproximação de olhar com os modernistas, de trazer a problemática social para a arte.”